"A montanha era um pinhal cerrado..."

"Fizeram a pausa do meio-dia no ponto onde tinham alcançado o rio. Enquanto o gado pastava, Miller montou o cavalo e afastou-se para nordeste, seguindo o curso da água, Andrews apartou-se de Charley Hoge e Schneider, que estavam a descansar ao lado da carroça, e sentou-se na margem. A montanha era um pinhal cerrado. Na margem oposta, os maciços troncos castanhos atingiam cerca de nove a dez metros de altura até aos ramos cheios de agulhas verde-escuras. Nos espaços entre os enormes troncos havia apenas outros troncos, e outros ainda, sem interrupção, até as poucas árvores que consegui ver se fundirem numa imagem de densidade, impenetrável e escura, composta por árvores, sombra e terra sem luz, jamais pisada pelo homem. Ergueu os olhos e seguiu a face da montanha que irrompia num declive abrupto. A imagem dos pinheiros perdia-se, bem como a imagem da densidade e até a imagem da própria montanha. A única coisa que via era um tapete verde-escuro de agulhas e galhos, que aos seus olhos perdia identidade e dimensão, como um mar imobilizado num momento de calmaria, de ondas regulares e eternamente detidas, no qual poderia caminhar por momentos, para logo se afundar ao progredir sobre ele, afundar-se lentamente na sua imensidão verde, até alcançar o âmago da floresta sem ar, ser parte dela, soturnamente sozinho. Permameceu sentado na margem do rio durante muito tempo, com os olhos e a mente presos na visão que o assaltara."

John Williams
em "Butcher's Crossing" (pág. 121)

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