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Alerta!

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Os países bálticos incorporaram no período posterior ao desmembramento da União Soviética um conjunto de teses e narrativas que contrariam de forma vincada e evidente elementos da sua própria história que não podem ser ignorados no debate acerca da sua participação na Guerra de 39-45 (também chamada "Segunda Guerra Mundial") e em particular no capítulo - imenso - da Grande Guerra Pátria 41-45, que naturalmente os envolveu. Os nacionalismos bálticos existiram, existem e não pode ser ignorados, embora apresentem elevadíssima contradição com os resultados do referendo soviético de 1991, quando as três repúblicas em questão participaram na consulta popular sobre a continuidade daquele Estado federal, aprovando-a com percentagens esmagadoras, no quadro de níveis de participação igualmente elevados. [1] A narrativa oficial báltica, aquela que se cristalizou naquelas sociedades ex-soviéticas, acerca da participação de lituanos, letões e estónios na "segunda grande guerra...

"Crime e costume na sociedade selvagem"

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Há uns meses comprei "Crime e costume na sociedade selvagem", um livrinho/brochura do antropólogo Bronislav Malinowski (1884-1942) que centrado no exemplo dos melanésios das Ilhas Trobriand, a oriente da Nova Guiné, pretende desmentir a hipótese de um comunismo "primitivo" espontaneamente levado à prática pelos "selvagens" daquelas paragens do globo terrestre. O livro, de 1926, deve ser lido à luz dos valores e perspectivas desse tempo, caso contrário choca pela linguagem depreciativa e preconceituosa relativamente às gentes "selvagens" da Melanesia. Seja como for é interessante e, para lá do debate académico-ideológico no quadro do qual Malinowski procurou por todas as formas combater o funcional-estruturalismo como abordagem teórica mais ajustada à realidade das ilhas e das suas diferentes famílias e clãs. Para Malinowski, na sua visão "funcionalista", o que a observação directa (e participativa) dos hábitos e costumes dos ilhéus de...

Paciência, precisa-se.

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A obra "O irresponsável", de Pedro García Olivo, arranca com "A agulha aponta o norte", texto que começa por referir a ideia da salvação ao virar da esquina ("o Ocidente encheu-se então de Emancipadores, de Iluminados, de Redentores, de Engenheiros da Revolução, de Pastores, de Libertadores, de Messias, de Profissionais da Subversão, de Caudilhos, de Profetas, de Agitadores..."). O seu sucesso na atracção da atenção das massas teve origem nessa pressa muito "ocidental" relativamente à resolução de tudo, "ao virar da esquina". Outros povos, noutras longitudes, aprenderam a cultivar a paciência como virtude para lidar com aquilo que não é manifestamente resolúvel pela acção apressada de líderes nem minorias esclarecidas. A expressão "paciência de chinês" aponta para o Oriente como grande território da relação demorada e reconciliada com o tempo e as suas circunstâncias. E se hoje se observa uma considerável "ocidentalizaçã...

Isto não é uma oportunidade, é um colapso

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Não sou fã de "O eixo do mal". Vejo o programa quando por acaso o apanho e raramente por mais de dez minutos. Esta semana consegui acompanhá-lo quase do princípio ao fim e não dei o tempo por mal empregue. Retive algumas ideias, estando de acordo com umas e em desacordo com outras, e fixei um desabafo de Clara Ferreira Alves que me parece uma boa síntese dos tempos que vivemos e daqueles que se aproximam: "isto não é uma oportunidade, é um colapso". A ideia de colapso não é uniforme a partir de todos os prismas. Há quem a perceba como uma degradação progressiva e há quem a associe a uma derrocada abrupta. Carlos Taibo, anarquista galego que escreveu um livro sobre o tema, dedicou o primeiro capítulo da obra às definições de "colapso", tal a necessidade de se perceber do que falamos quando debatemos ou escrevemos sobre o tema. O colapso é um processo ou um momento? Uma sucessão de acontecimentos ou um incidente de larga escala e profundo impacto? Taibo ...

A sociedade contranatura (1.)

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A frase inaugural de "A sociedade contranatura", de Serge Moscovici, é por si só um amplo tema de reflexão e debate que a obra naturalmente aprofunda: "Para se convencer da sua singularidade, o género humano - ou a parte do género humano que se arroga a falar em seu nome - levanta barreiras à sua volta e coloca-se em oposição ao resto dos seres animados." A decomposição desta ideia em pequenas parcelas resulta na identificação de uma série de problemas humanos que, por via do relativo domínio da nossa espécie sobre as restantes formas de vida no planeta, explicam de certa forma as fragilidades da nossa espécie. Moscovici fala-nos desde logo numa necessidade de auto-convencimento ("Para se convencer...") e na forma como esta se concretiza não através da observação objectiva da realidade, mas antes por via da construção de uma percepção artificial e criada a partir de fragmentos seleccionados da sua relação com a natureza que o rodeia. A perc...

Oito livros para a quarentena

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Depois de lavar as mãos não há objecto mais limpinho do que um livro para devorar. Estas são as minhas oito sugestões para a quarentena: 1. Parque Jurássico, Michael Crichton Quando comecei a ler "Parque Jurássico", livrinho que comprei como "oportunidade" de preço reduzido numa feira do livro, não sabia no que me estava a meter. Cinquenta páginas depois já me tinha rendido e, no final do livro, estava convencido de que tinha lido a obra de ficção especulativa ("científica", se quiserem) mais extraordinária. Depois disso já li muita ficção especulativa, mas "Parque Jurássico" continua a minha obra preferida dentro do género. 2. Stoner, de John Williams O meu livro preferido. Sem palavras. 3. Spartacus, Howard Fast Recebi-o das mãos do meu avô quando tinha nove anos. Na primeira página a seguinte dedicatória: "Para o Vasco, com a lembrança da luta permanente do Homem contra os opressores de todos os tempos. Páscoa de 1987". ...

Sagan, os dinossauros e as melgas

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A releitura de "Carl Sagan: vida e obra", biografia da responsabilidade de Keay Davidson, tem-se revelado em múltiplos aspectos tempo de verdadeira qualidade nos dias que correm. Sagan foi e é uma das minhas grandes referências intelectuais, não obstante divergências aqui e ali sobre este e aquele tema, o que é coisa mais comum do que rara no confronto de mundivisões que faço com aqueles cuja vida procuro acompanhar ou - depois de falecidos, como é o caso - conhecer melhor. No capítulo 2 da obra - "Chicago" - Davidson descreve o início da carreira académica de Sagan e a forma como desde cedo procurou relacionar-se com aqueles com quem poderia aprender mais. Sagan escreveu cartas, abordou académicos, apareceu sem aviso prévio à porta de alguns e sacrificou verões com estágios maçudos e entediantes. Um desses verões passou-o sentado a observar moscas da fruta e as respectivas mutações. Do estágio não resultou qualquer conclusão interessante para lá de uma noção...

"A montanha era um pinhal cerrado..."

"Fizeram a pausa do meio-dia no ponto onde tinham alcançado o rio. Enquanto o gado pastava, Miller montou o cavalo e afastou-se para nordeste, seguindo o curso da água, Andrews apartou-se de Charley Hoge e Schneider, que estavam a descansar ao lado da carroça, e sentou-se na margem. A montanha era um pinhal cerrado. Na margem oposta, os maciços troncos castanhos atingiam cerca de nove a dez metros de altura até aos ramos cheios de agulhas verde-escuras. Nos espaços entre os enormes troncos havia apenas outros troncos, e outros ainda, sem interrupção, até as poucas árvores que consegui ver se fundirem numa imagem de densidade, impenetrável e escura, composta por árvores, sombra e terra sem luz, jamais pisada pelo homem. Ergueu os olhos e seguiu a face da montanha que irrompia num declive abrupto. A imagem dos pinheiros perdia-se, bem como a imagem da densidade e até a imagem da própria montanha. A única coisa que via era um tapete verde-escuro de agulhas e galhos, que aos seus olh...

"... e embora tenha de regressar, mesmo esse regresso é apenas outro meio que tenho de a abandonar, cada vez mais"

"Sentia que, onde quer que vivesse, estava a abandonar cada vez mais a cidade, a afastar-se rumo à terra bravia. Sentia que era esse o sentido fulcral que podia encontrar na vida, e afigurava-se-lhe que todos os acontecimentos da infância e da juventude o tinham conduzido inconscientemente a este momento no qual se achava poisado, como se fosse antes de levantar voo. Tornou a olhar o rio. Deste lado fica a cidade, pensou, e do outro a terra bravia; e embora tenha de regressar, mesmo esse regresso é apenas outro meio que tenho de a abandonar, cada vez mais". John Williams em "Butcher's Crossing" (pág. 55-56)

Sobre as Terras e os Lugares lendários

Em "História das Terras e dos Lugares lendários", Umberto Eco propõe-se abordar a realidade dos lugares irreais, ou seja, a forma como a nossa vivência da perspectiva da eventual realidade de lugares como a Ilha de Utopia, a Atlântida, a Ilha de São Brandão, o Reino do Prestes João, o Paraíso bíblico ou Shambala mudaram e mudam a vida individual e colectiva dos Homens ao longo da história. Segundo Umberto Eco - numa conclusão que não me parece particularmente surpreendente, pelo que creio que todos estaremos mais ou menos de acordo com ela - é o carácter não raras vezes insuportável do "mundo real" que gerou nos Homens a necessidade de perspectivar mundos ideais, imaginários, onde o caos dá lugar à harmonia. Noto que Eco se refere a lugares lendários embora alguns sejam na verdade imaginários (embora não fantasiosos). É curioso que os lugares lendários de Eco têm em regra - e toda a regra parece apresentar excepções - uma natureza diferente daqueles imaginário...

"Walking"

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"The Road goes ever on and on  Down from the door where it began.  Now far ahead the Road has gone,  And I must follow, if I can,  Pursuing it with eager feet,  Until it joins some larger way  Where many paths and errands meet.  And whither then? I cannot say"  ― J.R.R. Tolkien, The Fellowship of the Ring  Aproveitando o sossego - sempre relativo - que os fins-de-semana fora de Lisboa me proporcionam comecei e terminei a leitura da brochura "Caminhada" ("Walking", no original em inglês), de Henry David Thoreau. O texto, de 1862, apresenta-se claramente datado em alguns pontos. A Nova Inglaterra daquela segunda metade do século XIX já pouco ou nada tem a ver com aquela que hoje se apresenta aos olhos de um habitante de Concord e seus arrabaldes. Por outro lado, a essência da aventura pelo lado selvagem do mundo - e da vida - permanece mais ou menos intacta. É precisamente essa dimensão do texto de Thoreau que se r...

O sr. Ulme e eu.

A minha memória é um lugar estranho. Como a remexo muito tende a desarrumar-se o que me cria não raras vezes problemas no dia-a-dia. Bem sei que a memória não é um registo de acontecimentos, uma cronologia de factos. Pelo contrário, trata-se de um registo de experiências, de sentimentos e de percepções que podem ser interpretados pelo próprio de forma diversa ao longo do tempo. Nós mudamos, e a nossa memória muda connosco. Tenho algumas memórias de infância, embora não me lembre de coisas que a maior parte das pessoas recorda com facilidade. Por exemplo: não me lembro dos nomes dos meus amigos da escola primária (com meia-dúzia de excepções) e recordo mal episódios supostamente marcantes. Por outro lado guardo com total clareza a minha visão de alguns acontecimentos ou experiências, sociais ou familiares (sobretudo estes últimos). Assim, é com base em poucas mas muito marcantes memórias que estruturo a minha identidade. Uma das mais nítidas memórias que tenho da minha meninice é a ...

O estranhíssimo colosso: biografia de Agostinho da Silva [parte 1]

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Ainda muito no início da leitura d'O Estranhíssimo Colosso recordo algo que antes havia lido mas que a memória não tinha retido: Agostinho da Silva, que tinha George como primeiro nome, era neto de Algarvios do sotavento e Alentejanos. Pelo menos um dos seus avós seria de descendência maometana, o que em Portugal - e no Algarve em particular - não deve nem pode espantar. É pois coisa muito irónica, uma delícia que não deixará de provocar contida irritação em muito nacionalista de trazer por casa, que um dos maiores pensadores do século XX português - com boa parte da obra dedicada precisamente à história e à cultura portuguesa e lusófona - tenha tido (muito mais do que apenas a sensação) firme certeza de que nas veias lhe corria sangue daqueles que por aqui habitaram longos séculos, e que aqui permaneceram depois do fim da dominação muçulmana na Península, muitas vezes tolerados, outras vezes perseguidos.

Animals

O meu interesse pelo álbum "Animals" (1977), dos Pink Floyd, surge com a leitura de "Children of Men", de P.D.James, e com o estudo da adaptação cinematográfica deste romance, filme homónimo do livro realizado por Alfonso Cuarón. Na versão cinematográfica de "The Children of Men" existe uma referência explícita à capa de "Animals" através da Battersea Power Station (uma central eléctrica localizada em Nine Elms, na Grande Londres). No filme, a central é a "Ark of Art", e entre duas das suas chaminés - tal como na capa de "Animals" - é visível um enorme balão de hélio com a forma de um porco. Livro, filme e disco evidenciam vários pontos de união de que não apenas o conceito artístico e mas sobretudo boa parte da mundivisão explicitada são evidentes sinais. "Animals", que passou a ser muito provavelmente o meu preferido da relativamente extensa discografia dos Pink Floyd, constitui-se como um álbum de tipo conce...