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A sociedade contranatura (1.)

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A frase inaugural de "A sociedade contranatura", de Serge Moscovici, é por si só um amplo tema de reflexão e debate que a obra naturalmente aprofunda: "Para se convencer da sua singularidade, o género humano - ou a parte do género humano que se arroga a falar em seu nome - levanta barreiras à sua volta e coloca-se em oposição ao resto dos seres animados." A decomposição desta ideia em pequenas parcelas resulta na identificação de uma série de problemas humanos que, por via do relativo domínio da nossa espécie sobre as restantes formas de vida no planeta, explicam de certa forma as fragilidades da nossa espécie. Moscovici fala-nos desde logo numa necessidade de auto-convencimento ("Para se convencer...") e na forma como esta se concretiza não através da observação objectiva da realidade, mas antes por via da construção de uma percepção artificial e criada a partir de fragmentos seleccionados da sua relação com a natureza que o rodeia. A perc...

As nações indígenas e o tempo que vivemos

No seu muito recente discurso de agradecimento pelo prémio de melhor actor, durante a cerimónia de entrega dos "Globos de Ouro", Leonardo DiCaprio referiu-se aos povos indígenas de todo o mundo, à sua dignidade e à necessidade de proteger as suas terras dos interesses corporativos que desde há séculos as colocam em risco. Trata-se de uma referência importante e actual, que encontra expressão por exemplo no estilo "anti-Western" de que "The Revenant" parece ser um dos mais recentes representantes no cinema. Os povos indígenas - aqueles originários de territórios progressivamente ocupados e explorados por povos invasores e colonizadores - foram sempre ao longo da história caricaturados como gentes bárbaras, preguiçosas e pouco inteligentes, incapazes de explorar os recursos naturais em que as suas terras são ricas. Há dias li uma passagem de um livro de Wenceslau de Moraes sobre a história do Japão em que o autor refere a má fama de que gozavam os Ainu do ...

"A montanha era um pinhal cerrado..."

"Fizeram a pausa do meio-dia no ponto onde tinham alcançado o rio. Enquanto o gado pastava, Miller montou o cavalo e afastou-se para nordeste, seguindo o curso da água, Andrews apartou-se de Charley Hoge e Schneider, que estavam a descansar ao lado da carroça, e sentou-se na margem. A montanha era um pinhal cerrado. Na margem oposta, os maciços troncos castanhos atingiam cerca de nove a dez metros de altura até aos ramos cheios de agulhas verde-escuras. Nos espaços entre os enormes troncos havia apenas outros troncos, e outros ainda, sem interrupção, até as poucas árvores que consegui ver se fundirem numa imagem de densidade, impenetrável e escura, composta por árvores, sombra e terra sem luz, jamais pisada pelo homem. Ergueu os olhos e seguiu a face da montanha que irrompia num declive abrupto. A imagem dos pinheiros perdia-se, bem como a imagem da densidade e até a imagem da própria montanha. A única coisa que via era um tapete verde-escuro de agulhas e galhos, que aos seus olh...

"... e embora tenha de regressar, mesmo esse regresso é apenas outro meio que tenho de a abandonar, cada vez mais"

"Sentia que, onde quer que vivesse, estava a abandonar cada vez mais a cidade, a afastar-se rumo à terra bravia. Sentia que era esse o sentido fulcral que podia encontrar na vida, e afigurava-se-lhe que todos os acontecimentos da infância e da juventude o tinham conduzido inconscientemente a este momento no qual se achava poisado, como se fosse antes de levantar voo. Tornou a olhar o rio. Deste lado fica a cidade, pensou, e do outro a terra bravia; e embora tenha de regressar, mesmo esse regresso é apenas outro meio que tenho de a abandonar, cada vez mais". John Williams em "Butcher's Crossing" (pág. 55-56)

"Walking"

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"The Road goes ever on and on  Down from the door where it began.  Now far ahead the Road has gone,  And I must follow, if I can,  Pursuing it with eager feet,  Until it joins some larger way  Where many paths and errands meet.  And whither then? I cannot say"  ― J.R.R. Tolkien, The Fellowship of the Ring  Aproveitando o sossego - sempre relativo - que os fins-de-semana fora de Lisboa me proporcionam comecei e terminei a leitura da brochura "Caminhada" ("Walking", no original em inglês), de Henry David Thoreau. O texto, de 1862, apresenta-se claramente datado em alguns pontos. A Nova Inglaterra daquela segunda metade do século XIX já pouco ou nada tem a ver com aquela que hoje se apresenta aos olhos de um habitante de Concord e seus arrabaldes. Por outro lado, a essência da aventura pelo lado selvagem do mundo - e da vida - permanece mais ou menos intacta. É precisamente essa dimensão do texto de Thoreau que se r...

"E entretanto, do outro lado do mar, morreu um rio..." [1]

Por vezes interrogo-me se a maior tragédia deste planeta não será o Homem. Faço-o sem pingo de misantropia, sem distanciamento face à espécie a que pertenço, apenas porque me sinto incapaz de compreender a Humanidade e a mim próprio dentro dela. Não sei o que nos resta de bom senso, de sentido de bem comum. Creio que quase tudo se vai perdendo com cada espécie que ajudamos a extinguir, com cada floresta que dizimamos, com cada rio que afogamos em lixo. Ninguém fará um minuto de silêncio pelo rio assassinado, embora todos saibamos que sem água não há vida, e que é contra a própria vida que atentamos sempre que, com ou sem consciência disso, torcemos a lâmina que desde há muito enterrámos na carne tenra de um planeta que procura desesperadamente sobreviver-nos. A capacidade regeneradora da natureza acabará por ressuscitá-lo - ao Rio Doce -, provavelmente quando não sobrar um homem para ver nessa ressurreição uma boa "oportunidade de negócio". A natureza olha-nos como o pr...