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O homem que nunca se engana e raramente tem dúvidas

Passamos a vida a lamentar a pequenez da memória que cultivamos quando na verdade - e não obstante alguns de nós terem mesmo memória de galinha - o que nos vai fazendo deixar cair (pelo menos da memória mais presente) as recordações do passado é o entupimento de informação a que estamos submetidos - queiramos ou não - nos dias que correm. É por isso bom que figuras como o actual presidente da República revisitem a sua vastíssima experiência em crises políticas do passado, lembrando os concidadãos acerca de governos de gestão em que andou - de uma forma ou de outra implicado - não vá alguém esquecer-se de que nesta República desbaratada Cavaco foi e é o político que durante mais tempo ocupou as mais relevantes funções no Estado: desde o início da década de 80, há mais de 30 anos, ocupou as funções de ministro das finanças (1980-1981), primeiro-ministro (por três vezes, incluindo duas em maioria absoluta, entre 1985 e 1995) e presidente da República (desde 2006). Não há outro nome, no pe...

Portugal e a NATO

As referências à NATO como elemento potencialmente desagregador de uma alternativa que assuma uma ruptura objectiva face à política de direita têm sido regulares, abundantes e desinformadas desde que, após 4 de Outubro, se verificou uma mudança importante na correlação de forças existente no quadro da Assembleia da República eleita. A tese da direita é fundamentalmente a seguinte: PCP e BE pretendem uma ruptura imediata de Portugal com a NATO, o que colocaria em causa o alinhamento "europeísta" e " atlantista " do país, comprometendo "compromissos internacionais assumidos". Na sua declaração após as eleições foi o próprio Presidente da República a afirmar que ao novo governo se exige "a observância das obrigações decorrentes da participação nas organizações internacionais de defesa coletiva, como a NATO, e da adesão plena à União Europeia e à Zona Euro". Mas... será mesmo assim? Creio que boa parte daqueles que escrevem sobre o que diz e ...

A nova "ameaça vermelha" [actualizado com post-scriptum]

Quando um dia se fizer a história do processo pós-eleitoral de 2015, analisando a forma como a imprensa se mobilizou para caricaturar, marginalizar e descredibilizar uma solução governativa de ruptura com longo anos de submissão não disfarçada da política à finança e aos interesses das corporações nacionais e internacionais, não duvido que uma das conclusões prováveis se refira à forma como o medo foi arma de arremesso usada e abusada por um batalhão de fazedores de opinião fortemente empenhados em derrotar qualquer alternativa real ao status quo . O que se passa na imprensa nacional é triste mas não surpreende. Na luta de classes há sectores da sociedade bem conscientes do seu lugar e do seu papel. Momentos como este que vivemos têm o mérito de tornar mais evidentes uma coisa e a outra. Creio que o tempo é de resistir à tentação de entrar no debate sobre acontecimentos de há 80, 70, 60, 40 ou 25 anos atrás. Parece-me que a ruptura com a política de direita que poderá ainda sur...

"Vêm aí os russos" [e parece que os cubanos também]

Outubro de 2015 marca o fim do mito em torno dos chamados "partidos de protesto" que marcou ao longo de cerca de 40 anos o discurso mediático em torno das organizações políticas à esquerda do PS, com particular destaque para o PCP. Este mesmo período histórico inaugura uma nova fase da vida política nacional, que repesca retórica anti-comunista antiga [1] e reformula o discurso do "arco da governação", reformulando fronteiras e estabelecendo novos limites à "credibilidade programática" em debate. Se até ao passado dia 4 de Outubro se dizia que "PCP e BE não estão dispostos a garantir uma solução de governo", hoje o discurso dominante nos media é outro: o PS não pode nem deve ceder à disponibilidade da esquerda para formar governo e inaugurar em Portugal uma inédita tentativa de dar combate à pobreza estruturante que se alapou ao país e às suas gentes desde há muitas gerações. É precisamente no contexto do debate político em curso sobre ...

"Vêm aí os russos"

O quadro político pós-eleitoral, marcado pela perda da maioria absoluta dos mandatos na Assembleia da República por parte da coligação de direita e pela insuficiência de votos e mandatos por parte do PS para formar governo (sozinho), resultou num cenário relativamente inédito, que dá inteira razão aos que antes das eleições foram identificando o propósito exclusivo das legislativas tal como são realizadas em Portugal: escolher 230 deputados e, por essa via, definir a correlação forças no quadro da Assembleia da República. Este novo cenário parece provocar insónias a muita gente, o que para ser franco não apenas me diverte como me tranquiliza o sono. A direita acena com fantasmas "PRECianos" ou com o regresso ao "Gulag" e isso, por si só, é bem a imagem da forma como sentem os resultados do passado dia 4 como real ameaça ao mais-do-mesmo a que se haviam habituado. Devo confessar que ainda não vejo um eventual entendimento entre PCP, PEV, PS e BE como uma possib...