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O estádio como expressão física da identidade de um clube

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Os clubes são sobretudo as pessoas que lhes dão corpo. Muito mais do que taças, vitórias, grandes jogadores ou património material, a alma de um emblema são as pessoas que este representa do ponto de vista simbólico. Por outro lado, os espaços que acompanham a história das instituições são eles mesmos cápsulas do tempo, guardiões de memórias e de sentimentos individuais e colectivos que juntos são parte imprescindível da identidade de uma egrégora. O estádios de futebol pertencem a esta categoria de lugares que carregam em si o espírito de gerações. Hoje seria o último jogo da "vida" do velhinho Griffin Park, a casa do Brentford FC. Cento e dezasseis anos como testemunha dos altos e baixos de um clube londrino que é bem a representação do melhor que o futebol inglês tem para oferecer ao jogo: a ligação dos emblemas às suas comunidades locais. A situação de urgência santária que vivemos impede que os adeptos do clube da abelha se despeçam do espaço a que chamaram "casa...

1989: o ano em que o futebol "morreu" (2)

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De Sheffield à povoação de Orgreave, no South Yorkshire, são apenas sete milhas de distância. O lugar, sem nenhum interesse particular e pequeno demais para chamar a atenção de forasteiros pouco dados à história do século XX britânico, foi o palco de uma tarde de confrontos entre os mineiros em greve e a polícia do South Yorkshire: a 18 de Junho de 1984, cinco anos antes dos acontecimentos de Hillsborough, centenas de mineiros foram brutalmente espancados e noventa e cinco foram detidos. Muitos estudiosos da Greve de 1984-1985 referem a chamada "Batalha de Orgreave" como um momento chave no conflito, e em favor do governo da senhora Thatcher. Entre os polícias daquela tarde em Orgreave encontravam-se agentes que anos depois viveriam os acontecimentos de Hillsborough participando activamente na ocultação de factos e na construção de uma narrativa culpabilizante dos mineiros e dos adeptos do Liverpool que a investigação posterior veio a desmentir. [1] Não existe uma relação dir...

1989: o ano em que o futebol "morreu" (1)

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Quando em 2013 Margaret Thatcher morreu muitos saíram à rua para celebrar com enormes embalagens de leite que usaram para brindar ao desaparecimento de um dos símbolos mais poderosos do neoliberalismo que dominou a cena internacional dos anos 80 e o início dos anos 90 do século XX.  O pormenor terá passado despercebido à maioria daqueles que, fora do Reino Unido e da Irlanda, observavam boquiabertos as celebrações populares da morte de Thatcher, mas nenhum britânico com mais de 40 anos ignorava o facto da ex-primeira ministra ter passado à história com a alcunha “milk snatcher”, depois de no início da década de 70 e na qualidade de secretária da educação, ter alargado a crianças entre os 7 e os 11 anos a medida anteriormente tomada pelo ex-governo “Labour” de interromper a distribuição de leite nas escolas. O roubo do leite nas escolas, para muito o único que bebiam, foi o prelúdio de vinte anos de conflito permanente, assumido e disfrutado de Thatcher e dos seus “Tories” contra as...

Alerta!

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Os países bálticos incorporaram no período posterior ao desmembramento da União Soviética um conjunto de teses e narrativas que contrariam de forma vincada e evidente elementos da sua própria história que não podem ser ignorados no debate acerca da sua participação na Guerra de 39-45 (também chamada "Segunda Guerra Mundial") e em particular no capítulo - imenso - da Grande Guerra Pátria 41-45, que naturalmente os envolveu. Os nacionalismos bálticos existiram, existem e não pode ser ignorados, embora apresentem elevadíssima contradição com os resultados do referendo soviético de 1991, quando as três repúblicas em questão participaram na consulta popular sobre a continuidade daquele Estado federal, aprovando-a com percentagens esmagadoras, no quadro de níveis de participação igualmente elevados. [1] A narrativa oficial báltica, aquela que se cristalizou naquelas sociedades ex-soviéticas, acerca da participação de lituanos, letões e estónios na "segunda grande guerra...

Sunderland e a narrativa escolhida

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A segunda temporada de "Sunderland Till I die" está aí e já li que a terceira pode ser antecipada, aproveitando as quarentenas por esse mundo fora. A Netflix não brinca em serviço e os filmes-documentais desportivos (e agora também a ficção, com "The English Game") são hoje um produto de consumo apetecível e com saída. Mérito a quem se lembrou de explorar o filão. Confesso que gostei da primeira temporada da série. Se o nome do clube não me era de todo estranho, a sua realidade - desportiva, institucional, económica e social - foi uma completa surpresa. Esta ignorância relativamente ao que era o Sunderland beneficia de certa forma os criadores da série. É que não estava - não estávamos, a esmagadora maioria dos espectadores - em condições de perceber se a narrativa adoptada relativamente ao clube, à comunidade e aos problemas quotidianos da empresa que gere o nome e o emblema correspondiam ou não à verdade dos factos. E isso torna-nos, meros espectadores, num género...

O melhor dos dois mundos

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Sou sócio do Belenenses e pago religiosamente as minhas quotas todos os meses. Aliás, pago as minhas e as dos meus dois filhos menores. Faço-o por "débito directo" porque sei que de outra forma deixarei acumular dívida ao Clube e de pagá-la poderá ser um esforço maior do que posso suportar. Já aconteceu no passado. Não questiono o pagamento de quotas no período da quarentena tal como não o faço durante os meses normais de interrupção das competições. Sou "dono do Clube", tenho direitos e deveres. E um dos deveres é contribuir financeiramente para a sua saúde e sustentabilidade. Ser sócio, no sentido associativo do termo, é muitíssimo diferente de ser "cliente". Os clubes não são sociedades comerciais, nem nada que se pareça. A nossa tradição é associativa, de base local. Todo o edifício desportivo português assenta nos clubes de base associativa, ao contrário do que acontece noutros países, alguns dos quais de grande relevância no contexto internacional. N...

James McClean: a papoila e o "passa montanhas"

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Comecemos pelas apresentações e pelos factos: James McClean é jogador de futebol profissional, actualmente ligado ao Stoke City FC, clube inglês que disputa o "Championship", género de segunda Liga local. McClean é irlandês nascido em Derry, provavelmente um dos locais de maior tradição nacionalista no norte da Irlanda, conhecido pelo seu forte apoio ao Exército Republicano Irlandês, o IRA. Durante o período de quarentena profilática que atravessa, McClean publicou na rede social Instagram uma fotografia sua (e dos filhos) na qual aparece usando um "passa montanhas". À imagem acrescentou a frase "Todays School lesson — History". A polémica não demorou e em menos de nada a conta do jogador no Instagram foi removida e com ela todas as imagens e textos que nela existiam. McClean lamentou o sucedido e o Clube aplicou-lhe uma multa de duas semanas de salário. Só que o assunto não ficou encerrado… A simpatia do jogador pela causa da unificação dos dois territóri...