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"De e dos sócios": da ideia abstracta à praxis diária

Depois do debate em torno de modelos genéricos de abordagem ao fenómeno desportivo (clube-associação vs clube-empresa), existe um outro debate não menos importante que é o de se saber qual o estilo, o tipo ou a ideia de associativismo a concretizar (na prática muito mais do que na retórica) no seio dos clubes-associação. Não acredito em modelos. Cada clube tem a sua história, a sua identidade e realidade associativa, as suas prioridades, forças e dificuldades. O associativismo que serve ao Clube A pode não estar ao alcance, ou não ser do interesse, do Clube B ou C. Existem, todavia, princípios gerais que caracterizam um “clube de sócios e dos sócios”. Do meu ponto de vista, sublinharia cinco princípios fundamentais: 1. O “clube de sócios e dos sócios” é aquele em que todas as decisões estruturantes e fundamentais são tomadas de forma informada, e tendo presente todos os dados acerca das mesmas, pelos associados no contexto do grande fórum do associativismo que são as Assembleias Ge...

Nos 110 anos do FC Sankt Pauli de Hamburgo

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O grande FC Sankt Pauli, clube alemão sediado no bairro homónimo da cidade portuária de Hamburgo, completa hoje 110 anos de existência. É uma idade bonita para um clube de olhos postos no futuro e que brinca com a sua idade ao afirmar-se "non established since 1910". Mas porquê? Suponho que sejam duas as razões. A primeira é o facto do St. Pauli existir na verdade desde 1899, ano em que é formado um grupo de futebol dentro do Hamburg-St.Pauli Turn-Verein 1862. A equipa permaneceu sem actividade real até 1907, quando disputa o seu primeiro jogo frente à equipa do clube de natação de Aegir. A 15 de Maio de 1910, o futebol do Hamburg-St.Pauli Turn-Verein 1862 torna-se no FC St. Pauli, autonomizando-se e ganhando a forma de clube de futebol do bairro de Sankt Pauli. A segunda será, estou a crer, um jogo de palavras com o significado de "established"; o FC St. Pauli é conhecido por ser um clube contra o status-quo, "anti-establishment"... embora nem sempre tenh...

A OPA e a lei das SAD

São vários os motivos e são múltiplas as justificações que podem e devem motivar alterações profundas à lei das sociedades anónimas desportivas. As notícias em torno da OPA sobre os 28,06% da Benfica SAD [1] [3] são apenas mais um elemento a ter em conta na avaliação dos méritos e dos deméritos de uma lei que apareceu sustentada numa ideia de abertura do futebol profissional "à sociedade civil", mas que contribuiu apenas para maior opacidade e menor capacidade associativa no controlo e no escrutínio da gestão que em seu nome é feita nas sociedades comerciais que gerem o negócio de milhões do futebol-indústria. Este blogue contém alguns textos sobre o triste fenómeno da perda do controlo associativo sobre a maioria do capital social de sociedades anónimas desportivas do contexto do futebol. Este post aborda o fenómeno inverso, ou seja, a forma como vários clubes criaram ao longo dos anos mecanismos alternativos de fugir a um dos objectivos principais da lei aprovada nos anos 9...

A força do futebol local

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A força do futebol "não profissional" está na proximidade às comunidades locais (que são frequentemente as comunidades de origem dos jogadores das equipas), aos sócios dos clubes, aos adeptos de bancada; está nos estádios pequenos que frequentemente enchem, ou acolhem pequenas multidões superiores a boa parte dos jogos disputados nas competições profissionais; está na ausência de transmissões televisivas e nos horários de realização dos jogos; está no preço dos bilhetes, geralmente acessíveis ao adepto comum; e está sobretudo na competitividade das provas.  Não fosse o cenário de asfixia associativa que em Portugal se vive desde há longa data, aliada a uma percepção pública errada sobre o Campeonato de Portugal e as competições distritais, parece-me que o CP poderia ser uma prova de interesse superior ao da II Liga. Não apenas porque o nível físico, técnico e táctico entre as duas competições não é distante, mas também - e sobretudo - porque bate claramente o contexto "L...

O 25 de Abril e o Belenenses: a luta da direcção do Dr. Constantino Fernandes

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O Clube de Futebol "Os Belenenses", expressão de associativismo popular centenária a que tenho o orgulho de pertencer, na qualidade de associado e adepto, desde o ano de 1982, não é nem nunca foi um emblema politizado. Ao Belenenses foram feitas ao longo dos seus 100 anos de história inúmeras maldades. Poucas terão sido tão marcantes e depreciadoras como a colagem de "clube do regime", coisa que nunca foi. Aliás, são muitos os episódios que marcam um distanciamento do Belenenses - ou de belenenses individualmente considerados - face ao Estado Novo e à sua política. Neste dia 25 de Abril de 2020 aproveito para trazer ao conhecimento dos leitores do "Na bancada" um nome e uma história que poucos belenenses conhecem; refiro-me à atribulada passagem do Dr. Constantino Fernandes pela presidência de Clube, cargo que exerceu num dos período de ouro da história azul, primeiro entre 1942 e 1944, e depois em 1946. Contexto Em Junho de 1944, em plena Segunda Guerra M...

50+1

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"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.", Bertolt Brecht O futebol - mais do que qualquer outra modalidade desportiva - é um contexto de caricaturas exageradas. No fim-de-semana que passou a caricatura foi dos adeptos alemães que recordaram ao país e ao mundo desportivo que a regra 50+1 não é um pormenor na sua relação com o jogo, e que estão na disposição de a defender, com ou sem o apoio daqueles que se alimentam da sua paixão, jogadores incluídos. Sobre o assunto manifestou-se o presidente da Liga de Clubes profissionais de futebol Pedro Proença, referindo-se aos adeptos alemães de vários clubes como "minoria criminosa", numa demonstração de falta de visão que não surpreende quem vem acompanhando com um mínimo de atenção o vazio da sua presidência. Lá como cá, este é um flagelo que temos de combater. Sem receios e sem hesitações.O futebol não pode continuar dependente de uma pequena minoria...

A caravana passou.

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A demissão de Duarte Ferreira, ex-vice presidente do Clube de Futebol "Os Belenenses", veio abrir em muitos daqueles que anseiam pela reversão das decisões tomadas pelos sócios reunidos em sucessivas - sublinho: sucessivas - Assembleias Gerais um género de esperança alimentada pela estreita visão de uma relação directa e quase exclusiva entre a actual direcção do Belenenses e o processo que conduziu à ruptura de facto entre o Belenenses e a sua ex-sociedade anónima desportiva. As provocações a Patrick Morais de Carvalho (PMC) sucedem-se, sobem de tom e descem de nível. Acusações delirantes procuram criar no sócio comum a ideia de que a actual direcção do Belenenses se encontra fragilizada e com os dias contados. E nem a perspectiva real da resolução do processo da Oitante parece retirar argumentos a quem emprega na refrega toda a sorte de insinuações, sempre por concretizar. Temo que quem tanto anseia pelo "regresso ao Restelo" esteja redondamente equivocad...

O racismo entre nós

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Quando nos anos 80 os ultras punk do FC Sankt Pauli chegaram em peso às bancadas do Millerntor-Stadion resolveram tomar nas suas mãos a tarefa nem sempre agradável de limpar a grade de grupos racistas que faziam dos jogos da equipa mais representativa do Clube palco para a sua actividade política extremista * . Os ultras resolveram o que nem os dirigentes nem as autoridades quiseram resolver durante muitos anos. E se hoje o FC Sankt Pauli é um símbolo da luta contra o racismo, a homofobia e o fascismo nas bancadas dos estádios deve-o ao adepto comum e anónimo que actuou na bancada em defesa da liberdade e do respeito. O racismo - como a homofobia, que é tema ainda mais tabu no meio desportivo... - não é exclusivo, no que ao futebol diz respeito, deste ou daquele Clube. E se é verdade que algumas massas adeptas não perdem uma oportunidade para se manifestarem abertamente racistas (a Lazio é um caso extremo de combinação de fascismo, racismo e crime organizado), ou antiracistas (o ...

Os descontentes

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A inquietação e o descontentamento são sentimentos próprios dos seres humanos que não se conformam com uma determinada situação. Por vezes o descontentamento é bom na medida em que nos mobiliza para o futuro e para o progresso. Outras vezes funciona em sinal contrário, procurando refrear alterações importantes e, mesmo que invocando "dinâmica" e vontade de avançar, serve frequentemente para procurar travar processos de mudança importantes como aquele que se vive no Clube de Futebol "Os Belenenses". O jornal "O jogo" publicou ontem uma peça sobre um "grupo de adeptos preocupados com situação actual do Belenenses" . O "grupo" não é identificado, nem quantificado, pelo que pode ser numeroso mas também pode ser um duo, para quem considerar que um par é um grupo, um trio, meia-dúzia de tertulianos que gostam do Belenenses e se dedicam a conversar regularmente sobre as circunstâncias da sua vida desportiva, associativa e institucional. ...