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A questão 'geracional'

Nunca fui um defensor da ideia de que gerações diferentes têm em princípio visões também elas diferentes sobre uma mesma questão. Não penso que o que faz diferir o essencial da análise seja a idade de quem pensa, antes a sua condição e posicionamento económico e social face ao objecto do debate. Dito isto, não ignoro que haja uma dimensão geracional relevante que também integre a equação como elemento importante na modelação do pensamento de cada pessoa sobre determinada questão, evento ou processo histórico.  O historiador brasileiro Luiz António Simas referia sobre a questão do velho versus o novo Maracanã o facto do seu filho, menino de 9 anos, já não aguentar ouvi-lo acerca daquilo que se perdeu no proxesso de arenização do Estádio. Esta forma de estar perante a questão resulta de uma circunstância inultrapassável: o pequeno Simas nunca experenciou (nem poderá alguma vez fazê-lo) - ao contrário do pai - a vivência da arquibancada do velho Macaranã.  A compreensão da questã...

"Peçam desculpa ao Leixões"

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A SAD do Leixões é um caso sério. Já escrevi sobre o assunto no início de Abril e regresso ao tema, sem grande desenvolvimento, apenas para sublinhar que na orgulhosa terra do Estádio do Mar os adeptos estão a encher o saco e não escondem o descontentamento face uma sociedade comercial que compete em seu nome, e que se afasta progressivamente daquele que deveria ser o âmago da sua existência. De acordo com o diário desportivo A Bola, "Matosinhos voltou a acordar com várias tarjas de contestação à SAD" (leia-se, aos seus responsáveis e à sua conduta). Não conheço a fundo o contexto particular dos dias que passam, mas creio a faixa colocada em local público na qual se pode ler "Peçam desculpa ao Leixões por o desonrarem em prol dos milhões" é uma referência directa ao pedido de desculpas de Paulo Lopo e da Leixões SAD a Joaquim Evangelista e ao Sindicato dos Jogadores. Lopo, o homem que se diz apaixonado pelo Leixões, assobia para o lado e segue em frente, agora com...

A OPA e a lei das SAD

São vários os motivos e são múltiplas as justificações que podem e devem motivar alterações profundas à lei das sociedades anónimas desportivas. As notícias em torno da OPA sobre os 28,06% da Benfica SAD [1] [3] são apenas mais um elemento a ter em conta na avaliação dos méritos e dos deméritos de uma lei que apareceu sustentada numa ideia de abertura do futebol profissional "à sociedade civil", mas que contribuiu apenas para maior opacidade e menor capacidade associativa no controlo e no escrutínio da gestão que em seu nome é feita nas sociedades comerciais que gerem o negócio de milhões do futebol-indústria. Este blogue contém alguns textos sobre o triste fenómeno da perda do controlo associativo sobre a maioria do capital social de sociedades anónimas desportivas do contexto do futebol. Este post aborda o fenómeno inverso, ou seja, a forma como vários clubes criaram ao longo dos anos mecanismos alternativos de fugir a um dos objectivos principais da lei aprovada nos anos 9...

Do "amor à camisola"

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As recentes declarações de Paulo Lopo, presidente da SAD do Leixões, acerca do amor ao clube e à camisola dos jogadores revestem-se de genuíno interesse num contexto em que as sociedades anónimas lhes propõem "soluções" que aliviam as suas tesourarias, diminuem os rendimentos dos atletas e sobrecarregam o sistema de segurança social. É uma perspectiva interessante, que apenas à luz dos interesses do "investidor" pode se entendida. Paulo Lopo chegou à SAD do Leixões em 2016. Nessa circunstância a SAD leixonense descrevia-o em nota à imprensa como "um conceituado empresário com interesses no setor imobiliário, na imprensa escrita e no ramo do entretenimento, tendo sido sócio e fundador da Sociprime, a maior empresa Portuguesa de Field Marketing". Não referia todavia qualquer ligação prévia de Lopo ao Leixões, como associado de longa data, por exemplo. Em Agosto de 2019 Lopo referia-se ao Leixões como o "amor da minha vida" [1], mas um ano antes (em...

Da urgência da revisão da lei das SAD (6)

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A lei das SAD tem perto de um quarto de século em Portugal, embora nem todas as SAD constituídas tenham essa longividade. O Sporting foi o primeiro clube nacional a constituir uma sociedade anónima desportiva, no âmbito do seu futebol, e depois disso muitos foram os clubes de vários níveis competitivo e de várias modalidades a constituirem sociedades comerciais destinadas a gerir "empresarialmente" as suas actividades económicas e desportivas. É sabido que a lei das SAD forçou vários emblemas - nomeadamente aqueles que à data da entrada em vigor da lei disputavam as competições profissionais - no sentido de avançarem para a formação de uma de duas opções: sociedades anónimas desportivas ou sociedades desportivas unipessoais por quotas. Foi um errro relativamente ao qual o Estado e "o legislador" não fez ainda o devido acto de autocrítica e correcção. A lei das SAD padece de problemas vários que se agrupam em duas categorias: as suas insuficiências, no quadro legal q...

Da urgência da revisão da lei das SAD (5)

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Em Julho de 2015 os sócios do CD Feirense aprovaram em Assembleia Geral a venda de 70% do capital da sua SAD, constituída meses antes, em Outubro de 2014, a um grupo investidor nigeriano. Não sei ao certo se o sócios do clube de Terras de Santa Maria votaram na posse de todos os elementos acerca do "investidor", mas consultando por exemplo a peça veiculada pela Sapo Desporto a propósito da votação, que decorreu à porta fechada, pode ler-se que "no final da reunião magna de hoje, a direção do Feirense preferiu não divulgar o nome do grupo investidor que será detentor de 70 por cento do capital da SAD". O investidor era na verdade Kunle Soname, figura política e empresário no seu país natal, criador do website de apostas desportivas online "Bet9ja", empresa esta envolvida num caso de alegada recusa de pagamento de um prémio, no ano de 2017. A primeira questão que surgirá a muitos é se não ocorreu aos sócios do CD Feirense, caso estivessem na posse de todos o...

Da urgência da revisão da lei das SAD (3)

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O argumento da gestão racional como vantagem fundamental da gestão privatizada das sociedades anónimas desportivas em desmentido em Portugal por inúmeros exemplos. Olhemos para o caso do número de treinadores em sociedades controladas por "investidores"; no CD Aves, por exemplo, entre o início da temporada 2015/2016 e a interrupção da temporada 2019/2020 em nenhuma época a equipa foi orientada por um único treinador: 2015/2016: Abel Xavier e Ulisses Morais 2016/2017: Ivo Vieira e José Mota; 2017/2018: Ricardo Soares, José Mota e Lito Vidigal 2018/2019: José Mota e Augusto Inácio 2019/2020: Augusto Inácio, Nuno Manta e Leandro Pires  Na verdade, muitos investimentos em sociedades anónimas desportivas custam a explicar, por não se identificar neles nenhuma razão clara e de peso para a compra de posições accionistas maioritárias, com a respectiva resolução imediata de problemas de tesouraria que quase sempre se impõe... O caso do CD Santa Clara A "SAD" do CD Santa Clar...

Da urgência da revisão da lei das SAD (2)

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Uma das questões fundamentais que se colocam a propósito não apenas da fragilidade da lei das SAD mas também e sobretudo no que se refere ao próprio conceito de sociedade anónima desportiva diz respeito à penetração de "investidores" desconhecidos - nas suas várias dimensões - que adquirem acções colocadas no mercado através de intermediários. O caso da "Sporting Clube de Braga Futebol SAD" merece especial atenção, por diversas razões. A SAD bracarense foi durante muito tempo integrada pelo município de Braga, que detinha acções não apenas no futebol profissional do Clube mas também num outro emblema local, o ABC, dedicado ao Andebol. Quando em 2016 a CM de Braga tomou a decisão de vender as acções em sua posse anunciou igualmente a intenção de prosseguir o apoio aos clubes através de "outras formas de colaboração". No caso do SC de Braga é bem conhecido o negócio ruinoso (para a edilidade) em torno do aluguer do Estádio Municipal de Braga; é igualmente pú...

Da urgência da revisão da lei das SAD (1)

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O processo de mercantilização do jogo não se deu em Portugal de um dia para o outro e em certo sentido acompanhou o processo de recuperação capitalista iniciado em 1976, e que teve no período das maiorias absolutas de Cavaco Silva profundo dinamismo. É todavia com os governos de António Guterres, durante os quais se privatizou na companhia de garrafas de champagne, que a legislação de enquadramento do sistema desportivo e do futebol profissional sofre significativa alteração. Entre 1995 e 1997 discute-se no espaço público a necessidade de raptar o futebol profissional à dimensão associativa dos clubes entregando-o a estruturas societária de natureza fundamentalmente diferente, com vocação comercial e destinada a servir de veículo ao "reforço de capital" reclamado pelos principais emblemas nacionais, cada vez menos capazes de dar resposta à progressiva necessidade de dinheiro para competir ao mais alto nível. As "sociedades anónimas desportivas" chegam a Portugal por...