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Conservar a sardinha mas não a lata

Li no passado sábado o interessante texto que Valdano dedicou àquela que Vítor Serpa chama hoje "a alma do jogo" e devo dizer que o partilhei com várias pessoas por me parecer encontrar-se cheio de bons motivos de reflexão, o que não quer dizer necessariamente que concorde com Valdano relativamente às razões que possam sustentar posição finais aparentemente semelhantes. No editorial de "A Bola" de hoje, Vítor Serpa acaba por me dar o pretexto para questionar algumas das razões desta "revolta contra o mundo moderno" (algumas expressões de pretensa "modernidade" no futebol) com a qual em certo sentido me identifico - na discordância relativa ao VAR, por exemplo - mas da qual me distancio quando escavando mais fundo começo a perceber que gente que diz o mesmo pensa sobre o problema a partir de prismas muito diferentes (e distantes). O Professor Agostinho da Silva costumava avisar os "conservadores" acerca do risco de querem conservar a lat...

A OPA e a lei das SAD

São vários os motivos e são múltiplas as justificações que podem e devem motivar alterações profundas à lei das sociedades anónimas desportivas. As notícias em torno da OPA sobre os 28,06% da Benfica SAD [1] [3] são apenas mais um elemento a ter em conta na avaliação dos méritos e dos deméritos de uma lei que apareceu sustentada numa ideia de abertura do futebol profissional "à sociedade civil", mas que contribuiu apenas para maior opacidade e menor capacidade associativa no controlo e no escrutínio da gestão que em seu nome é feita nas sociedades comerciais que gerem o negócio de milhões do futebol-indústria. Este blogue contém alguns textos sobre o triste fenómeno da perda do controlo associativo sobre a maioria do capital social de sociedades anónimas desportivas do contexto do futebol. Este post aborda o fenómeno inverso, ou seja, a forma como vários clubes criaram ao longo dos anos mecanismos alternativos de fugir a um dos objectivos principais da lei aprovada nos anos 9...

1989: o ano em que o futebol "morreu" (1)

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Quando em 2013 Margaret Thatcher morreu muitos saíram à rua para celebrar com enormes embalagens de leite que usaram para brindar ao desaparecimento de um dos símbolos mais poderosos do neoliberalismo que dominou a cena internacional dos anos 80 e o início dos anos 90 do século XX.  O pormenor terá passado despercebido à maioria daqueles que, fora do Reino Unido e da Irlanda, observavam boquiabertos as celebrações populares da morte de Thatcher, mas nenhum britânico com mais de 40 anos ignorava o facto da ex-primeira ministra ter passado à história com a alcunha “milk snatcher”, depois de no início da década de 70 e na qualidade de secretária da educação, ter alargado a crianças entre os 7 e os 11 anos a medida anteriormente tomada pelo ex-governo “Labour” de interromper a distribuição de leite nas escolas. O roubo do leite nas escolas, para muito o único que bebiam, foi o prelúdio de vinte anos de conflito permanente, assumido e disfrutado de Thatcher e dos seus “Tories” contra as...

Do "amor à camisola"

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As recentes declarações de Paulo Lopo, presidente da SAD do Leixões, acerca do amor ao clube e à camisola dos jogadores revestem-se de genuíno interesse num contexto em que as sociedades anónimas lhes propõem "soluções" que aliviam as suas tesourarias, diminuem os rendimentos dos atletas e sobrecarregam o sistema de segurança social. É uma perspectiva interessante, que apenas à luz dos interesses do "investidor" pode se entendida. Paulo Lopo chegou à SAD do Leixões em 2016. Nessa circunstância a SAD leixonense descrevia-o em nota à imprensa como "um conceituado empresário com interesses no setor imobiliário, na imprensa escrita e no ramo do entretenimento, tendo sido sócio e fundador da Sociprime, a maior empresa Portuguesa de Field Marketing". Não referia todavia qualquer ligação prévia de Lopo ao Leixões, como associado de longa data, por exemplo. Em Agosto de 2019 Lopo referia-se ao Leixões como o "amor da minha vida" [1], mas um ano antes (em...

Da urgência da revisão da lei das SAD (6)

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A lei das SAD tem perto de um quarto de século em Portugal, embora nem todas as SAD constituídas tenham essa longividade. O Sporting foi o primeiro clube nacional a constituir uma sociedade anónima desportiva, no âmbito do seu futebol, e depois disso muitos foram os clubes de vários níveis competitivo e de várias modalidades a constituirem sociedades comerciais destinadas a gerir "empresarialmente" as suas actividades económicas e desportivas. É sabido que a lei das SAD forçou vários emblemas - nomeadamente aqueles que à data da entrada em vigor da lei disputavam as competições profissionais - no sentido de avançarem para a formação de uma de duas opções: sociedades anónimas desportivas ou sociedades desportivas unipessoais por quotas. Foi um errro relativamente ao qual o Estado e "o legislador" não fez ainda o devido acto de autocrítica e correcção. A lei das SAD padece de problemas vários que se agrupam em duas categorias: as suas insuficiências, no quadro legal q...

Lay-Off? O "futebol-negócio" a ser Padaria Portuguesa.

A situação extraordinário relacionada com a pandemia do Coronavirus/Covid-19 exigiu de todos os cidadãos e das instituições públicas e privadas em geral uma rápida adaptação a um contexto totalmente novo. O desporto - e dentro deste os clubes e as sociedades comerciais que actuam no plano da "indústria" do futebol-negócio - também se viu forçado a tomar medidas, que passaram desde logo pela correcta suspensão das competições desportivas. Surge agora em Portugal o recurso de uma sociedade comercial (a "B" SAD) ao regime de lay-off, que é fundamentalmente um mecanismo de suspensão temporária dos contratos de trabalho, com redução drástica do vencimento dos trabalhadores e recurso a apoios públicos para o pagamento da pequena parte desses vencimentos que lhes é devida. É mais um exemplo da fragilidade evidente - agora posta ainda mais a nú - das sociedades comerciais do futebol, incluindo das privatizadas, como é o caso da "B" SAD. Um mês depois da interrupçã...

Da urgência da revisão da lei das SAD (5)

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Em Julho de 2015 os sócios do CD Feirense aprovaram em Assembleia Geral a venda de 70% do capital da sua SAD, constituída meses antes, em Outubro de 2014, a um grupo investidor nigeriano. Não sei ao certo se o sócios do clube de Terras de Santa Maria votaram na posse de todos os elementos acerca do "investidor", mas consultando por exemplo a peça veiculada pela Sapo Desporto a propósito da votação, que decorreu à porta fechada, pode ler-se que "no final da reunião magna de hoje, a direção do Feirense preferiu não divulgar o nome do grupo investidor que será detentor de 70 por cento do capital da SAD". O investidor era na verdade Kunle Soname, figura política e empresário no seu país natal, criador do website de apostas desportivas online "Bet9ja", empresa esta envolvida num caso de alegada recusa de pagamento de um prémio, no ano de 2017. A primeira questão que surgirá a muitos é se não ocorreu aos sócios do CD Feirense, caso estivessem na posse de todos o...

Da urgência da revisão da lei das SAD (4)

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As sociedades anónimas desportivas não são um exclusivo das divisões profissionais do futebol nacional. Existem "SADs" no Campeonato de Portugal (3ª divisão) e nas competições distritais, a par de outros projectos de natureza empresarial e lucrativa de que não nos ocuparemos por agora. O CD Fátima, por exemplo, viu-se em determinada fase da sua vida com dificuldades financeiras que abriram campo à penetração de "investidores" sem qualquer relação prévia com o emblema. Assim, primeiro o Kaaki Sports Group (com posição relevante no Louletano) e depois o Leon Group SA tomaram posições accionistas maioritárias na SAD do clube. O Leon Group SA é um grupo com várias empresa e parcerias, envolvendo o "negócio" e a "indústria" do futebol, incluindo empresas como a Kick Soccer Coin e a DH Sports. No âmbito das parcerias registo para aquela existente com o Sport Club Ivoti, do Brasil, que mantém relações como Sporting CP, no âmbito da formação. Em 2019 o K...

Da urgência da revisão da lei das SAD (3)

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O argumento da gestão racional como vantagem fundamental da gestão privatizada das sociedades anónimas desportivas em desmentido em Portugal por inúmeros exemplos. Olhemos para o caso do número de treinadores em sociedades controladas por "investidores"; no CD Aves, por exemplo, entre o início da temporada 2015/2016 e a interrupção da temporada 2019/2020 em nenhuma época a equipa foi orientada por um único treinador: 2015/2016: Abel Xavier e Ulisses Morais 2016/2017: Ivo Vieira e José Mota; 2017/2018: Ricardo Soares, José Mota e Lito Vidigal 2018/2019: José Mota e Augusto Inácio 2019/2020: Augusto Inácio, Nuno Manta e Leandro Pires  Na verdade, muitos investimentos em sociedades anónimas desportivas custam a explicar, por não se identificar neles nenhuma razão clara e de peso para a compra de posições accionistas maioritárias, com a respectiva resolução imediata de problemas de tesouraria que quase sempre se impõe... O caso do CD Santa Clara A "SAD" do CD Santa Clar...

Da urgência da revisão da lei das SAD (2)

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Uma das questões fundamentais que se colocam a propósito não apenas da fragilidade da lei das SAD mas também e sobretudo no que se refere ao próprio conceito de sociedade anónima desportiva diz respeito à penetração de "investidores" desconhecidos - nas suas várias dimensões - que adquirem acções colocadas no mercado através de intermediários. O caso da "Sporting Clube de Braga Futebol SAD" merece especial atenção, por diversas razões. A SAD bracarense foi durante muito tempo integrada pelo município de Braga, que detinha acções não apenas no futebol profissional do Clube mas também num outro emblema local, o ABC, dedicado ao Andebol. Quando em 2016 a CM de Braga tomou a decisão de vender as acções em sua posse anunciou igualmente a intenção de prosseguir o apoio aos clubes através de "outras formas de colaboração". No caso do SC de Braga é bem conhecido o negócio ruinoso (para a edilidade) em torno do aluguer do Estádio Municipal de Braga; é igualmente pú...

O melhor dos dois mundos

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Sou sócio do Belenenses e pago religiosamente as minhas quotas todos os meses. Aliás, pago as minhas e as dos meus dois filhos menores. Faço-o por "débito directo" porque sei que de outra forma deixarei acumular dívida ao Clube e de pagá-la poderá ser um esforço maior do que posso suportar. Já aconteceu no passado. Não questiono o pagamento de quotas no período da quarentena tal como não o faço durante os meses normais de interrupção das competições. Sou "dono do Clube", tenho direitos e deveres. E um dos deveres é contribuir financeiramente para a sua saúde e sustentabilidade. Ser sócio, no sentido associativo do termo, é muitíssimo diferente de ser "cliente". Os clubes não são sociedades comerciais, nem nada que se pareça. A nossa tradição é associativa, de base local. Todo o edifício desportivo português assenta nos clubes de base associativa, ao contrário do que acontece noutros países, alguns dos quais de grande relevância no contexto internacional. N...

James McClean: a papoila e o "passa montanhas"

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Comecemos pelas apresentações e pelos factos: James McClean é jogador de futebol profissional, actualmente ligado ao Stoke City FC, clube inglês que disputa o "Championship", género de segunda Liga local. McClean é irlandês nascido em Derry, provavelmente um dos locais de maior tradição nacionalista no norte da Irlanda, conhecido pelo seu forte apoio ao Exército Republicano Irlandês, o IRA. Durante o período de quarentena profilática que atravessa, McClean publicou na rede social Instagram uma fotografia sua (e dos filhos) na qual aparece usando um "passa montanhas". À imagem acrescentou a frase "Todays School lesson — History". A polémica não demorou e em menos de nada a conta do jogador no Instagram foi removida e com ela todas as imagens e textos que nela existiam. McClean lamentou o sucedido e o Clube aplicou-lhe uma multa de duas semanas de salário. Só que o assunto não ficou encerrado… A simpatia do jogador pela causa da unificação dos dois territóri...