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O dia em que Sanders se calou...

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No dia em que os Estados Unidos da América se tornaram oficialmente o país com mais mortos por Covid-19, muito por força do impacto que a epidemia tem junto das camadas mais pobres da população, Bernie Sanders anunciou a suspensão da sua campanha pré-presidencial, no âmbito das primárias democratas, deixando assim totalmente desimpedido o caminho para a nomeação do ex-vice presidente Joe Biden. A campanha de Sanders começou por surpreender devido à capacidade de angariar fundos através de pequenas contribuições. Ao contrário da generalidade dos restantes candidatos, financiados por poderosos lobbies - ou no caso de Blomberg, pela sua própria fortuna pessoal - Sanders sustentou largamente a sua acção em dinheiro de gente comum, trabalhadores, que viram na sua candidatura e no seu programa social-democrata respostas para problemas estruturais da sociedade norte-americana: a pobreza e a crescente injustiça na distribuição do rendimento, a ausência de serviços públicos, o preço da edu...

Chega de demagogia e estupidez

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O "Chega!" já disse ao que vinha, já mostrou como o quer fazer e já definiu a sua meta. É muito claro no que se refere ao acessório embora nebuloso no que se refere ao essencial - nunca ninguém ouviu Ventura gritar por entre "vergonha!" os seus objetivos programáticos de acabar com a saúde prestada por hospitais públicos ou a descida dos custos do trabalho, incluindo salariais, medidas que constam no "Programa" do seu partido. Ventura quer criar no cidadão comum a ideia de que "diz o que o povo quer dizer e não pode" e por isso adopta aquele estilo que vai variando entre o lugar comum pouco esclarecido (o "toda a gente sabe que..."), a tirada pseudo-radical que é tão só e apenas extremista e o completo disparate. É aliás essa a marca mais saliente do discurso de Ventura e do "Chega!" no que à Covid-19 diz respeito. Vejamos por exemplo o caso das máscaras, cuja utilização indiscriminada é desaconselhada pela Direcção Geral de...

Paciência, precisa-se.

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A obra "O irresponsável", de Pedro García Olivo, arranca com "A agulha aponta o norte", texto que começa por referir a ideia da salvação ao virar da esquina ("o Ocidente encheu-se então de Emancipadores, de Iluminados, de Redentores, de Engenheiros da Revolução, de Pastores, de Libertadores, de Messias, de Profissionais da Subversão, de Caudilhos, de Profetas, de Agitadores..."). O seu sucesso na atracção da atenção das massas teve origem nessa pressa muito "ocidental" relativamente à resolução de tudo, "ao virar da esquina". Outros povos, noutras longitudes, aprenderam a cultivar a paciência como virtude para lidar com aquilo que não é manifestamente resolúvel pela acção apressada de líderes nem minorias esclarecidas. A expressão "paciência de chinês" aponta para o Oriente como grande território da relação demorada e reconciliada com o tempo e as suas circunstâncias. E se hoje se observa uma considerável "ocidentalizaçã...

Jornais

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A minha relação com os jornais não é diferente daquela que tiveram muitas pessoas da minha geração, ou daquelas que a precederam. Nasci e cresci num tempo sem internet e isso significava menos imediatismo na produção e no "consumo" de notícias. Os jornais saiam de manhã ou à tarde, por vezes tinham duas edições, mas não disparavam notícias todo o dia, a torto e a direito, num género de corrida desenfreada pelo pódio da rapidez na difusão de uma informação irrelevante, cujo interesse público se perde quase imediatamente ou, pior, nunca existiu. Durante anos fui leitor diário de jornais, em papel naturalmente. Nos desportivos comprei sempre "A Bola" - antes apenas a Gazeta dos Desportos, por ser uma publicação bem mais eclética - e nos outros, generalistas, cresci com o Público, o DN, o Expresso e o JN nas minhas idas ao norte. Imprensa regional pouca, porque quem nasce e cresce em Lisboa tem nos jornais de grande tiragem a sua própria imprensa local. Ah, e o Ava...

Uma imagem sem palavras (ii)

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Isto não é uma oportunidade, é um colapso

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Não sou fã de "O eixo do mal". Vejo o programa quando por acaso o apanho e raramente por mais de dez minutos. Esta semana consegui acompanhá-lo quase do princípio ao fim e não dei o tempo por mal empregue. Retive algumas ideias, estando de acordo com umas e em desacordo com outras, e fixei um desabafo de Clara Ferreira Alves que me parece uma boa síntese dos tempos que vivemos e daqueles que se aproximam: "isto não é uma oportunidade, é um colapso". A ideia de colapso não é uniforme a partir de todos os prismas. Há quem a perceba como uma degradação progressiva e há quem a associe a uma derrocada abrupta. Carlos Taibo, anarquista galego que escreveu um livro sobre o tema, dedicou o primeiro capítulo da obra às definições de "colapso", tal a necessidade de se perceber do que falamos quando debatemos ou escrevemos sobre o tema. O colapso é um processo ou um momento? Uma sucessão de acontecimentos ou um incidente de larga escala e profundo impacto? Taibo ...

"Survevalistas"

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Não é um exclusivo ianque, isso é certo. Seja como for é um traço bastante característico da cultura norte-americana, que bebe directamente no individualismo, e que nestes dias de alguma desorientação colectiva ganha especial visibilidade mediática: em Mathias, na West Virginia, existe um lugar à prova de epidemias - ou pelo menos assim o idealizam os seus donos - com capacidade para albergar 500 pessoas durante 25 anos, num género de arca bíblica muito ao gosto das seitas mais fanáticas do cristianismo fanático norte-americano. Não será o único, certamente. Nos Estados Unidos da América existe um número não desprezível de pessoas que, movidas por crenças religiosas, teorias conspirativas, doenças mentais ou simples tédio se dedicam à recolecção de produtos de primeira necessidade. Fazem-no geralmente durante os longos períodos em que praticamente mais ninguém pensa em armazenar quantidades industriais de enlatados, água, medicamentos ou munições. Os "survivalists" ian...

A Terra não existe para nós, existe independentemente de nós

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Em 2015 Bill Gates advertiu para a séria possibilidade de uma pandemia global com capacidade de expansão muito superior ao Ebola. Os mais conspirativos dirão que Gates sabia o que estava a ser criado em laboratório mas eu prefiro pensar, porque é precisamente nesse sentido que apontam todos os dados, que em 2015 a ciência já disponha de conhecimento suficiente para prever a séria possibilidade de um qualquer "Coronavírus" surgir numa parte do mundo e rapidamente chegar a todos os outros cantos do planeta . Foi o que aconteceu entre o final de 2019 e este início de 2020. Em 2015 poucos lhe deram atenção e eu confesso que apenas há dias descobri por mero acaso esta sua palestra nas famosas "TED Talks". Hoje ninguém se ri nem o acusa de alarmismo injustificado. A questão das alterações climáticas - "aquecimento global" é outra coisa, que se insere no quadro das alterações climáticas mas que não as esgota - é outra que em breve se revelará evidente m...

O treinador anarquista

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Fernando Pessoa era um reaccionário apesar de se afirmar ao contrário. Na sua célebre nota autobiográfica descreveu-se como "conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservadorismo, e absolutamente antireacionário". Se obra antireacionária escreveu essa obra terá sido "O Banqueiro Anarquista", a história de um homem que se liberta das contingências materiais limitadoras da liberdade tornando-se muito rico. Por vezes lembro-me do banqueiro pessoano quando oiço, vejo ou leio declarações de Jurgen Klopp, o treinador do Liverpool que se define como "de esquerda", embora o seu entendimento acerca do que é ser-se "de esquerda" possa não ser exactamente o mesmo que o meu. Klopp é muitíssimo bem pago. Já o era antes de rumar ao Liverpool e parece-me lógico que tenha melhorado as suas condições contratuais quando chegou a Inglaterra. Depois fartou-se de ganhar e sobretudo de proporcionar bons jogos aos adeptos do Clube e do jogo. E...

A selva sem lei

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A inexistência de lei é a lei da selva. Portugal ainda tem leis, boa parte das quais absurdas e construídas à medida das minorias. Mas tem. Agora parece que Marcelo se prepara para suspender direitos, liberdades e garantias, e o contexto parece o ideal para o que por aí já se ouve. O ex-esquerdista João Vieira Lopes ameaça com despedimentos no sector do comércio . E os "proprietários" acham absurda a ideia de se impedirem despejos numa fase em que todo o país se uniu em torno do apelo "fica em casa". Seria anedótico, não fosse dar-se o caso de existirem mesmo patrões e proprietários a aproveitarem o caos para despedir e despejar. A comunidade não é uma, não é una. Nunca foi. Portugal é um conceito sem correspondência social. Existem vários "portugais" dentro de Portugal que conflituam entre si. A pandemia e a ruptura económica e social que se afigura no horizonte clarificou-o e clarifica-o todos os dias. Por isso as estrutura sindicais têm hoje qu...

Por observação directa

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Os dias que passam e as incidências que observamos são precioso material de estudo para aqueles que se dedicam à observação e análise de fenómenos sociais como este que vivemos neste início de 2020. As gerações que convivem neste momento da história da humanidade observam talvez uma das primeiras epidemias de rápida disseminação com natureza verdadeiramente global. Não é a primeira, bem entendido, mas será singular nas suas características, consequências e impacto na vida das pessoas e das comunidades humanas. A psicologia das multidões e o comportamento dos seus elementos tem sido estudado por muitos e bons académicos ao longo da história. Existem conclusões sólidas, teorias validadas e modelos que encontram correspondência com a realidade, sem dúvida. Creio todavia que, se não tenho da história uma visão estreita e pouco informada, não haverá nesta fase do desenvolvimento históricos das comunidades humanas nenhum outro fenómeno que se lhe compare nas suas múltiplas e diferentes ...

"Eu vivo numa sociedade, que é pior que uma animalidade..." *

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Dizia e bem Fernando Alves , citando um escritor espanhol que havia lido horas antes , que se utilidade existe numa crise de saúde pública como aquela que parece ameaçar o país é revelar as nossas debilidades e a nossa fragilidade. Entenda-se isto da forma que se achar mais conveniente. Debilidade física perante um vírus ou psicológica, perante uma ameaça que ainda não compreendemos nem controlamos. O ser humano, o novo deus tecnológico, julga desde há muito tempo ter a capacidade de poder controlar tudo: as outras espécies, o ar, o mar, o espaço e o clima. Só que não. O que os dias que correm mostram é que nem sobre nós próprios temos controlo . O Diário de Notícias publica hoje uma peça que refere que "hHá equipamento de proteção individual (EPI) que está a desaparecer dos armários dos hospitais. A informação foi confirmada ao DN por profissionais de vária unidades das regiões de Lisboa e do Porto, que asseguram "a situação não é nova". A falta de novidade é re...

"Super Tuesday"

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Um dos aspectos que sempre me deu que pensar, em especial durante a fase mais militante da minha vontade irreprimível de mudar no mundo aquilo que me parece injusto e absurdo, foi (e é) a seguinte questão: o mundo quer ser mudado? Por mundo entenda-se a comunidade (ou as comunidades) humana. O mais prosaico dos exemplos: valerá a pena sacrificar tempo e esforço à causa da melhoria das condições de trabalho quando um quantidade não desprezível dos trabalhadores (eventualmente uma maioria qualificada...) não apenas não mexe uma palha nesse sentido como se encontra globalmente de acordo com os vários mecanismos - sócios, políticos, económicos, culturais - de exploração que os submetem? Na ressaca da "Super Tuesday" Biden passou para a frente da corrida democrata à nomeação para "Candidato Presidencial". Li alguns artigos e vi alguns vídeos sobre o assunto. O mais interessante é na minha perspectiva aquele em que Cenk Uygur faz no seu canal The Young Turks um gé...

50+1

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"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.", Bertolt Brecht O futebol - mais do que qualquer outra modalidade desportiva - é um contexto de caricaturas exageradas. No fim-de-semana que passou a caricatura foi dos adeptos alemães que recordaram ao país e ao mundo desportivo que a regra 50+1 não é um pormenor na sua relação com o jogo, e que estão na disposição de a defender, com ou sem o apoio daqueles que se alimentam da sua paixão, jogadores incluídos. Sobre o assunto manifestou-se o presidente da Liga de Clubes profissionais de futebol Pedro Proença, referindo-se aos adeptos alemães de vários clubes como "minoria criminosa", numa demonstração de falta de visão que não surpreende quem vem acompanhando com um mínimo de atenção o vazio da sua presidência. Lá como cá, este é um flagelo que temos de combater. Sem receios e sem hesitações.O futebol não pode continuar dependente de uma pequena minoria...

De La Palice (ou La Palisse, como preferirem)

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Uma "notícia" falsa é uma "notícia" falsa, ponto. E a mentira, independentemente do alvo e da simpatia que o mesmo nos merece (ou não) é uma mentira. Uma notícia no jornal não é prova da veracidade da acusação, até porque muitas notícias falsas são isso mesmo: acusações, insinuações, suposições, vagas abordagens baseada em vagos testemunhos de fontes anónimas que escrevem numa obscura página qualquer. Uma página na wikipédia também não é prova de coisa alguma. Enchemos a boca com lamentações acerca da "era da pós-verdade" mas somos especialistas em dar corpo à pós-verdade. Na brincadeira ou na séria. É uma pena.