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O Belenenses e o "mercado" brasileiro

Quem pensar com relativo detalhe acerca das equipas do Belenenses nos anos 90 chegará à conclusão de que a tese dos "contentores de brasileiros" muito em voga no início do século XXI não passa pela prova da análise concreta aos plantéis e seus elementos. É aliás curioso verificar que nos anos 80 e 90 os negócios relacionados com as transferências de jogadores entre o Brasil e os clubes portugueses (incluindo naturalmente o Belenenses) envolviam jogadores - alguns verdadeiros craques, outros nem tanto - e clubes que hoje se encontram num patamar inacessível às várias sociedades anónimas surgidas na viragem do Milénio. Curiosamente, a explosão no número de estrangeiros nas equipas do Belenenses - incluindo naturalmente jogadores brasileiros, um dos "mercados" preferenciais para clubes portugueses, quer pela facilidade de adaptação dos jogadores, quer pelo custo relativamente baixo e potencial garantia de qualidade - dá-se após 1999, quando a constituição da sociedade ...

A segunda morte do Estrela da Amadora

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Noventa e dois por cento é proporção dos presentes que não deixa dúvidas: os sócios do CD Estrela que se deram ao trabalho de viajar até ao Estoril para decidir acerca do futuro do emblema que refundaram há cerca de uma década atrás optaram pela dissolução do seu projecto numa outra coisa de natureza totalmente diferente, com o objectivo claro de verem a sua camisola voltar a competir nas provas nacionais e, mais à frente, profissionais.  Alguns dirão, se esse momento chegar, que são "estrelistas de primeira". Eu, que observo de fora, com a frieza que por vezes o envolvimento directo nestas coisas nos retira, penso que o mais provável é que o Estrela e os estrelistas que o amam - sobretudo aqueles que não se dividem entre o Estrela e o Benfica, ou entre o Estrela e o Sporting... - maldirão num futuro que pode não ser longínquo terem oferecido o seu nome, o seu emblema, a sua identidade e, provavelmente, o seu estádio a quem tem tanto de estrelista como eu tenho de adepto de s...

Os 10%: um assunto encerrado no plano associativo

A tese segundo a qual o Belenenses terá perdido um valor próximo de meio milhão de euros ao vender as suas ações na B-SAD não tem sustentação na realidade dos factos nem nas circunstâncias de uma sociedade anónima cujas condições de viabilidade se degradam de dia para dia. É bom que ninguém esqueça que em 2012 o actual dono da B-SAD comprou posição maioritária na sociedade por cerca de 500 euros. Naturalmente que o valor teve em atenção a situação financeira da sociedade, à data com um passivo de cerca de 7 milhões de euros, número avançado pelo "investidor" em entrevista à BolaTV, em Fevereiro de 2013. Seis anos depois, em 2019, o passivo da sociedade ultrapassava já 11 milhões de euros, 4 milhões a mais face ao momento da compra de 51% da sociedade por parte da Codecity Sports Management. Ou seja, o passivo da B-SAD é hoje muito superior ao passivo da "Os Belenenses Futebol SAD" à data da venda da maioria do capital social da sociedade, entre o final de 2012 e o i...

O treinador anarquista

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Fernando Pessoa era um reaccionário apesar de se afirmar ao contrário. Na sua célebre nota autobiográfica descreveu-se como "conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservadorismo, e absolutamente antireacionário". Se obra antireacionária escreveu essa obra terá sido "O Banqueiro Anarquista", a história de um homem que se liberta das contingências materiais limitadoras da liberdade tornando-se muito rico. Por vezes lembro-me do banqueiro pessoano quando oiço, vejo ou leio declarações de Jurgen Klopp, o treinador do Liverpool que se define como "de esquerda", embora o seu entendimento acerca do que é ser-se "de esquerda" possa não ser exactamente o mesmo que o meu. Klopp é muitíssimo bem pago. Já o era antes de rumar ao Liverpool e parece-me lógico que tenha melhorado as suas condições contratuais quando chegou a Inglaterra. Depois fartou-se de ganhar e sobretudo de proporcionar bons jogos aos adeptos do Clube e do jogo. E...

O industrial

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Sejamos clarinhos como a água: Pedro Proença é uma figurinha sem relevância em Portugal. Mas é uma figurinha com palco mediático. Palco este que é suficientemente amplo para lhe permitir, no quadro de uma situação sem precedentes na vida das gerações de portugueses que se cruzam neste início de 2020, vir criticar o primeiro-ministro de um país em luta contra uma pandemia por suposta falta de respeito pela "indústria do futebol" . Sou insuspeito de simpatias pelo primeiro-ministro e pelo seu Partido. Nunca votei PS e creio que nunca o farei. Considero aliás que António Costa tem sido um "bluff", estilo personagem de marketing num país sem orientação nem as políticas necessárias para a resolução do seu mais profundo e estrutural déficite, que é o da distribuição da riqueza e dos rendimentos. Dito isto, creio que Costa tem estado globalmente bem durante estes dias terríveis e que, no que respeita às suas declarações sobre o futebol ("o Estado tem que d...

50+1

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"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.", Bertolt Brecht O futebol - mais do que qualquer outra modalidade desportiva - é um contexto de caricaturas exageradas. No fim-de-semana que passou a caricatura foi dos adeptos alemães que recordaram ao país e ao mundo desportivo que a regra 50+1 não é um pormenor na sua relação com o jogo, e que estão na disposição de a defender, com ou sem o apoio daqueles que se alimentam da sua paixão, jogadores incluídos. Sobre o assunto manifestou-se o presidente da Liga de Clubes profissionais de futebol Pedro Proença, referindo-se aos adeptos alemães de vários clubes como "minoria criminosa", numa demonstração de falta de visão que não surpreende quem vem acompanhando com um mínimo de atenção o vazio da sua presidência. Lá como cá, este é um flagelo que temos de combater. Sem receios e sem hesitações.O futebol não pode continuar dependente de uma pequena minoria...

Rawle Alkins e o nosso basquetebol

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O basquetebol do Porto anunciou a contratação de um ex-Chicago Bulls para a sua equipa A que disputa a Liga. É um bom motivo para reflectirmos sobre a forma como o desporto em Portugal anda a várias velocidades, realidade determinada por um desequilíbrio imenso no plano associativo e financeiro. Curiosamente, esta contratação dá-se no dia seguinte ao feito da equipa de Andebol do Belenenses, que com tostões se vai encostando às equipas de milhões, ainda que dar o salto para a discussões dos títulos seja no actual quadro uma impossibilidade real. Nos dias que correm, para 90% das equipas que disputam as principais competições nacionais das modalidades amadoras (amadoras sem aspas, que hoje profissionais são “meia dúzia” de equipas nas competições principais masculinas do Futsal, Andebol, Voleibol, Hóquei e Basquetebol) ser-se “campeão” é atingir os objetivos definidos e, dentro de um quadro realista, superá-los aqui e ali (passar mais uma eliminatória da Taça, levar um jogo teor...

A caravana passou.

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A demissão de Duarte Ferreira, ex-vice presidente do Clube de Futebol "Os Belenenses", veio abrir em muitos daqueles que anseiam pela reversão das decisões tomadas pelos sócios reunidos em sucessivas - sublinho: sucessivas - Assembleias Gerais um género de esperança alimentada pela estreita visão de uma relação directa e quase exclusiva entre a actual direcção do Belenenses e o processo que conduziu à ruptura de facto entre o Belenenses e a sua ex-sociedade anónima desportiva. As provocações a Patrick Morais de Carvalho (PMC) sucedem-se, sobem de tom e descem de nível. Acusações delirantes procuram criar no sócio comum a ideia de que a actual direcção do Belenenses se encontra fragilizada e com os dias contados. E nem a perspectiva real da resolução do processo da Oitante parece retirar argumentos a quem emprega na refrega toda a sorte de insinuações, sempre por concretizar. Temo que quem tanto anseia pelo "regresso ao Restelo" esteja redondamente equivocad...

O racismo entre nós

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Quando nos anos 80 os ultras punk do FC Sankt Pauli chegaram em peso às bancadas do Millerntor-Stadion resolveram tomar nas suas mãos a tarefa nem sempre agradável de limpar a grade de grupos racistas que faziam dos jogos da equipa mais representativa do Clube palco para a sua actividade política extremista * . Os ultras resolveram o que nem os dirigentes nem as autoridades quiseram resolver durante muitos anos. E se hoje o FC Sankt Pauli é um símbolo da luta contra o racismo, a homofobia e o fascismo nas bancadas dos estádios deve-o ao adepto comum e anónimo que actuou na bancada em defesa da liberdade e do respeito. O racismo - como a homofobia, que é tema ainda mais tabu no meio desportivo... - não é exclusivo, no que ao futebol diz respeito, deste ou daquele Clube. E se é verdade que algumas massas adeptas não perdem uma oportunidade para se manifestarem abertamente racistas (a Lazio é um caso extremo de combinação de fascismo, racismo e crime organizado), ou antiracistas (o ...

Os descontentes

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A inquietação e o descontentamento são sentimentos próprios dos seres humanos que não se conformam com uma determinada situação. Por vezes o descontentamento é bom na medida em que nos mobiliza para o futuro e para o progresso. Outras vezes funciona em sinal contrário, procurando refrear alterações importantes e, mesmo que invocando "dinâmica" e vontade de avançar, serve frequentemente para procurar travar processos de mudança importantes como aquele que se vive no Clube de Futebol "Os Belenenses". O jornal "O jogo" publicou ontem uma peça sobre um "grupo de adeptos preocupados com situação actual do Belenenses" . O "grupo" não é identificado, nem quantificado, pelo que pode ser numeroso mas também pode ser um duo, para quem considerar que um par é um grupo, um trio, meia-dúzia de tertulianos que gostam do Belenenses e se dedicam a conversar regularmente sobre as circunstâncias da sua vida desportiva, associativa e institucional. ...

Jonah Lomu [1975-2015]

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Vejamos a coisa pela seguinte perspectiva: a mais prestigiada posição institucional na Nova Zelândia é a de capitão dos All-Blacks. E a razão é simples: para os neozelandeses, povo que vive nos nossos antípodas - geográficos mas não só -, a sua equipa principal de Rugby é o principal símbolo de uma ética e mundivisão que procuram cultivar desde cedo. Os All-Blacks são o símbolo máximo da Nova Zelândia e o seu capitão o símbolo máximo dos All-Blacks. Lomu, que nunca foi capitão de equipa, tinha um estatuto próximo daquele alcançado por Tana Umaga, Buck Shelford, Richie McCaw ou Colin Meads. Jonah Lomu não era apenas um fenomenal desportista, comparável aos mais prestigiados campeões olímpicos de modalidades como o atletismo, a natação ou a ginástica. Na Nova Zelândia (e de certa forma também fora do seu país) representava uma forma de estar na vida. "Bigger than sport", escreve hoje Mark Reason no Rugby Heaven neozelandês. Um símbolo de coragem, tenacidade, resiliência, h...

Um Belenenses sem belenenses

O recente comunicado divulgado pela Fúria Azul [1], a claque organizada do Clube de Futebol "Os Belenenses", é mais um elemento de análise do processo de descaracterização e esvaziamento do clube na sua dimensão popular e associativa. O Belenenses ainda existe, mas os belenenses escapam-lhe a uma velocidade que não abre margem para dúvidas sobre o destino próximo do emblema. É curiosa, e factualmente correcta, a distinção que o próprio título do comunicado da Fúria estabelece entre Belenenses (clube) e SAD. Não é por mero acaso, nem por preciosismo sem conteúdo real, que o mais importante núcleo organizado de adeptos do Belenenses se refere à principal equipa de futebol azul como "equipa de futebol da SAD". Nunca foi entusiasta do modelo privado de gestão de assuntos desportivos e associativos. No caso de um clube como o Belenenses, a criação da SAD constituiu mais um passo no sentido do colapso associativo - e por arrasto desporto e financeiro - de um emblema...

A cultura do Râguebi

Para quem gosta de Râguebi este mundial de 2015 tem-se revelado um evento de excelência, verdadeiramente inspirador. Estádios cheios, jogos bem disputados, surpresas pouco habituais, arbitragens impecáveis, saudável competição e convivência, dentro e fora dos recintos de jogo. O Râguebi é de facto diferente, pelo menos ao nível internacional. Essa diferença, a marca que torna modalidade verdadeiramente ímpar no contexto das modalidades colectivas de alta competição, reside fundamentalmente na forma como desde cedo as equipas aprendem a lidar com o sucesso e a derrota. No mundo oval raramente há desculpas. A atribuição causal é predominantemente interna e por isso, se as vitórias são mais saborosas, as derrotas são entendidas como insucessos próprios, verdadeiras oportunidades de melhoria que não podem nem devem ser descartadas para cima de terceiros. Apesar de ser - de entre aqueles que conheço - um dos contextos desportivos mais tradicionais e conservadores de aspectos essenciai...