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A bola na Quarentena

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Os últimos dois meses nas sociedades humanas foram pródigos de alterações de hábitos. Não digo que vivemos "o fim de uma era", tão pouco "o início de um mundo novo", mas parece-me objectivamente verdadeiro que por força das circunstâncias alguma coisa mudou. Se em definitivo ou não, o futuro esclarecerá. O desporto ficou interrompido, por se tratar de um contexto privilegiado de contágio mas também por ser possível prescindir dele sem que daí decorram consequências de maior para as comunidades humanas. Nas televisões o comentário desportivo, marcadamente centrado no futebol e, neste contexto, nos emblemas mais ricos do país e da Europa, perdeu espaço e foi durante semanas substituído por horas a fio de notícias sem pingo de novo sobre a pandemia nas suas várias dimensões. Este recuo do comentário desportivo em horário nobre abriu espaço para o surgimento de alternativas informais nas chamadas redes sociais. E se nem tudo o que se fez - e de certa forma ainda faz - f...

Do "amor à camisola"

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As recentes declarações de Paulo Lopo, presidente da SAD do Leixões, acerca do amor ao clube e à camisola dos jogadores revestem-se de genuíno interesse num contexto em que as sociedades anónimas lhes propõem "soluções" que aliviam as suas tesourarias, diminuem os rendimentos dos atletas e sobrecarregam o sistema de segurança social. É uma perspectiva interessante, que apenas à luz dos interesses do "investidor" pode se entendida. Paulo Lopo chegou à SAD do Leixões em 2016. Nessa circunstância a SAD leixonense descrevia-o em nota à imprensa como "um conceituado empresário com interesses no setor imobiliário, na imprensa escrita e no ramo do entretenimento, tendo sido sócio e fundador da Sociprime, a maior empresa Portuguesa de Field Marketing". Não referia todavia qualquer ligação prévia de Lopo ao Leixões, como associado de longa data, por exemplo. Em Agosto de 2019 Lopo referia-se ao Leixões como o "amor da minha vida" [1], mas um ano antes (em...

Lay-Off? O "futebol-negócio" a ser Padaria Portuguesa.

A situação extraordinário relacionada com a pandemia do Coronavirus/Covid-19 exigiu de todos os cidadãos e das instituições públicas e privadas em geral uma rápida adaptação a um contexto totalmente novo. O desporto - e dentro deste os clubes e as sociedades comerciais que actuam no plano da "indústria" do futebol-negócio - também se viu forçado a tomar medidas, que passaram desde logo pela correcta suspensão das competições desportivas. Surge agora em Portugal o recurso de uma sociedade comercial (a "B" SAD) ao regime de lay-off, que é fundamentalmente um mecanismo de suspensão temporária dos contratos de trabalho, com redução drástica do vencimento dos trabalhadores e recurso a apoios públicos para o pagamento da pequena parte desses vencimentos que lhes é devida. É mais um exemplo da fragilidade evidente - agora posta ainda mais a nú - das sociedades comerciais do futebol, incluindo das privatizadas, como é o caso da "B" SAD. Um mês depois da interrupçã...

Dêem-nos transparência

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João Miguel Tavares não se cansa de pedir coisas aos outros. Há um ano, por altura do 10 de Junho, pedia que nos dessem "algo em que acreditar". Agora pede "datas", "estudos" e "alguma coisa a que nos agarrar" . O articulista sente-se só e vazio, está visto. Há ajuda especializada à qual pode recorrer, não há que ter medo de o assumir e concretizar. Eu não quero "datas". Não quero uma promessa de "data do pico da infecção", ou de "data para o fim das medidas de excepção". Prefiro transparência a falsas expectativas, sobretudo quando independentemente de "estudos" há em toda esta circunstância uma enorme quantidade de elementos novos que tornam especialmente complexa e arriscada qualquer previsão de retorno ao antigo-normal. Se ninguém sabe ao certo quando terminarão as medidas de excepção, então preparemos essa realidade. Se a previsão é não existir previsão, estejamos pelo menos conscientes disso. Tanto ...

O melhor dos dois mundos

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Sou sócio do Belenenses e pago religiosamente as minhas quotas todos os meses. Aliás, pago as minhas e as dos meus dois filhos menores. Faço-o por "débito directo" porque sei que de outra forma deixarei acumular dívida ao Clube e de pagá-la poderá ser um esforço maior do que posso suportar. Já aconteceu no passado. Não questiono o pagamento de quotas no período da quarentena tal como não o faço durante os meses normais de interrupção das competições. Sou "dono do Clube", tenho direitos e deveres. E um dos deveres é contribuir financeiramente para a sua saúde e sustentabilidade. Ser sócio, no sentido associativo do termo, é muitíssimo diferente de ser "cliente". Os clubes não são sociedades comerciais, nem nada que se pareça. A nossa tradição é associativa, de base local. Todo o edifício desportivo português assenta nos clubes de base associativa, ao contrário do que acontece noutros países, alguns dos quais de grande relevância no contexto internacional. N...

Chega de demagogia e estupidez

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O "Chega!" já disse ao que vinha, já mostrou como o quer fazer e já definiu a sua meta. É muito claro no que se refere ao acessório embora nebuloso no que se refere ao essencial - nunca ninguém ouviu Ventura gritar por entre "vergonha!" os seus objetivos programáticos de acabar com a saúde prestada por hospitais públicos ou a descida dos custos do trabalho, incluindo salariais, medidas que constam no "Programa" do seu partido. Ventura quer criar no cidadão comum a ideia de que "diz o que o povo quer dizer e não pode" e por isso adopta aquele estilo que vai variando entre o lugar comum pouco esclarecido (o "toda a gente sabe que..."), a tirada pseudo-radical que é tão só e apenas extremista e o completo disparate. É aliás essa a marca mais saliente do discurso de Ventura e do "Chega!" no que à Covid-19 diz respeito. Vejamos por exemplo o caso das máscaras, cuja utilização indiscriminada é desaconselhada pela Direcção Geral de...

Jornais

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A minha relação com os jornais não é diferente daquela que tiveram muitas pessoas da minha geração, ou daquelas que a precederam. Nasci e cresci num tempo sem internet e isso significava menos imediatismo na produção e no "consumo" de notícias. Os jornais saiam de manhã ou à tarde, por vezes tinham duas edições, mas não disparavam notícias todo o dia, a torto e a direito, num género de corrida desenfreada pelo pódio da rapidez na difusão de uma informação irrelevante, cujo interesse público se perde quase imediatamente ou, pior, nunca existiu. Durante anos fui leitor diário de jornais, em papel naturalmente. Nos desportivos comprei sempre "A Bola" - antes apenas a Gazeta dos Desportos, por ser uma publicação bem mais eclética - e nos outros, generalistas, cresci com o Público, o DN, o Expresso e o JN nas minhas idas ao norte. Imprensa regional pouca, porque quem nasce e cresce em Lisboa tem nos jornais de grande tiragem a sua própria imprensa local. Ah, e o Ava...

Uma imagem sem palavras (ii)

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"Survevalistas"

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Não é um exclusivo ianque, isso é certo. Seja como for é um traço bastante característico da cultura norte-americana, que bebe directamente no individualismo, e que nestes dias de alguma desorientação colectiva ganha especial visibilidade mediática: em Mathias, na West Virginia, existe um lugar à prova de epidemias - ou pelo menos assim o idealizam os seus donos - com capacidade para albergar 500 pessoas durante 25 anos, num género de arca bíblica muito ao gosto das seitas mais fanáticas do cristianismo fanático norte-americano. Não será o único, certamente. Nos Estados Unidos da América existe um número não desprezível de pessoas que, movidas por crenças religiosas, teorias conspirativas, doenças mentais ou simples tédio se dedicam à recolecção de produtos de primeira necessidade. Fazem-no geralmente durante os longos períodos em que praticamente mais ninguém pensa em armazenar quantidades industriais de enlatados, água, medicamentos ou munições. Os "survivalists" ian...

Uma imagem sem palavras

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A Terra não existe para nós, existe independentemente de nós

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Em 2015 Bill Gates advertiu para a séria possibilidade de uma pandemia global com capacidade de expansão muito superior ao Ebola. Os mais conspirativos dirão que Gates sabia o que estava a ser criado em laboratório mas eu prefiro pensar, porque é precisamente nesse sentido que apontam todos os dados, que em 2015 a ciência já disponha de conhecimento suficiente para prever a séria possibilidade de um qualquer "Coronavírus" surgir numa parte do mundo e rapidamente chegar a todos os outros cantos do planeta . Foi o que aconteceu entre o final de 2019 e este início de 2020. Em 2015 poucos lhe deram atenção e eu confesso que apenas há dias descobri por mero acaso esta sua palestra nas famosas "TED Talks". Hoje ninguém se ri nem o acusa de alarmismo injustificado. A questão das alterações climáticas - "aquecimento global" é outra coisa, que se insere no quadro das alterações climáticas mas que não as esgota - é outra que em breve se revelará evidente m...

O treinador anarquista

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Fernando Pessoa era um reaccionário apesar de se afirmar ao contrário. Na sua célebre nota autobiográfica descreveu-se como "conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservadorismo, e absolutamente antireacionário". Se obra antireacionária escreveu essa obra terá sido "O Banqueiro Anarquista", a história de um homem que se liberta das contingências materiais limitadoras da liberdade tornando-se muito rico. Por vezes lembro-me do banqueiro pessoano quando oiço, vejo ou leio declarações de Jurgen Klopp, o treinador do Liverpool que se define como "de esquerda", embora o seu entendimento acerca do que é ser-se "de esquerda" possa não ser exactamente o mesmo que o meu. Klopp é muitíssimo bem pago. Já o era antes de rumar ao Liverpool e parece-me lógico que tenha melhorado as suas condições contratuais quando chegou a Inglaterra. Depois fartou-se de ganhar e sobretudo de proporcionar bons jogos aos adeptos do Clube e do jogo. E...

A selva sem lei

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A inexistência de lei é a lei da selva. Portugal ainda tem leis, boa parte das quais absurdas e construídas à medida das minorias. Mas tem. Agora parece que Marcelo se prepara para suspender direitos, liberdades e garantias, e o contexto parece o ideal para o que por aí já se ouve. O ex-esquerdista João Vieira Lopes ameaça com despedimentos no sector do comércio . E os "proprietários" acham absurda a ideia de se impedirem despejos numa fase em que todo o país se uniu em torno do apelo "fica em casa". Seria anedótico, não fosse dar-se o caso de existirem mesmo patrões e proprietários a aproveitarem o caos para despedir e despejar. A comunidade não é uma, não é una. Nunca foi. Portugal é um conceito sem correspondência social. Existem vários "portugais" dentro de Portugal que conflituam entre si. A pandemia e a ruptura económica e social que se afigura no horizonte clarificou-o e clarifica-o todos os dias. Por isso as estrutura sindicais têm hoje qu...

O industrial

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Sejamos clarinhos como a água: Pedro Proença é uma figurinha sem relevância em Portugal. Mas é uma figurinha com palco mediático. Palco este que é suficientemente amplo para lhe permitir, no quadro de uma situação sem precedentes na vida das gerações de portugueses que se cruzam neste início de 2020, vir criticar o primeiro-ministro de um país em luta contra uma pandemia por suposta falta de respeito pela "indústria do futebol" . Sou insuspeito de simpatias pelo primeiro-ministro e pelo seu Partido. Nunca votei PS e creio que nunca o farei. Considero aliás que António Costa tem sido um "bluff", estilo personagem de marketing num país sem orientação nem as políticas necessárias para a resolução do seu mais profundo e estrutural déficite, que é o da distribuição da riqueza e dos rendimentos. Dito isto, creio que Costa tem estado globalmente bem durante estes dias terríveis e que, no que respeita às suas declarações sobre o futebol ("o Estado tem que d...

Por observação directa

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Os dias que passam e as incidências que observamos são precioso material de estudo para aqueles que se dedicam à observação e análise de fenómenos sociais como este que vivemos neste início de 2020. As gerações que convivem neste momento da história da humanidade observam talvez uma das primeiras epidemias de rápida disseminação com natureza verdadeiramente global. Não é a primeira, bem entendido, mas será singular nas suas características, consequências e impacto na vida das pessoas e das comunidades humanas. A psicologia das multidões e o comportamento dos seus elementos tem sido estudado por muitos e bons académicos ao longo da história. Existem conclusões sólidas, teorias validadas e modelos que encontram correspondência com a realidade, sem dúvida. Creio todavia que, se não tenho da história uma visão estreita e pouco informada, não haverá nesta fase do desenvolvimento históricos das comunidades humanas nenhum outro fenómeno que se lhe compare nas suas múltiplas e diferentes ...

Oito livros para a quarentena

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Depois de lavar as mãos não há objecto mais limpinho do que um livro para devorar. Estas são as minhas oito sugestões para a quarentena: 1. Parque Jurássico, Michael Crichton Quando comecei a ler "Parque Jurássico", livrinho que comprei como "oportunidade" de preço reduzido numa feira do livro, não sabia no que me estava a meter. Cinquenta páginas depois já me tinha rendido e, no final do livro, estava convencido de que tinha lido a obra de ficção especulativa ("científica", se quiserem) mais extraordinária. Depois disso já li muita ficção especulativa, mas "Parque Jurássico" continua a minha obra preferida dentro do género. 2. Stoner, de John Williams O meu livro preferido. Sem palavras. 3. Spartacus, Howard Fast Recebi-o das mãos do meu avô quando tinha nove anos. Na primeira página a seguinte dedicatória: "Para o Vasco, com a lembrança da luta permanente do Homem contra os opressores de todos os tempos. Páscoa de 1987". ...

Oito discos para a quarentena

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A palavra de ordem é lavar as mãos e cobrir a boca no momento de espirrar e tossir, nunca com a mão, sempre com o lado interior do cotovelo. Isso e ouvir "Prog". Deixo dez sugestões para descobrir nos dias de tédio da quarentena que teremos mesmo que fazer. Ora anotem, por favor. 1. Porcupine Tree, "Fear of a blank planet" [completo aqui] O disco é inspirado no romance "Lunar Park", de Bret Easton Ellis, e é um disco conceptual sobre crescer num mundo sem referências e sem um propósito maior.  Provavelmente o melhor disco do Porcupine Tree. 2. Opeth, Pale Communion [completo aqui] O disco vale a Steven Wilson o rótulo do produtor que alterou para sempre o estilo musical dos Opeth. "Pale Communion" é metal, mas não é o velho Metal dos Opeth. A voz suave e as guitarras melódicas, as composições longas e cheias de secções - de que "Eternal Rains Will Come" será o melhor exemplo - aproximam o disco ao "metal progressivo...

"Eu vivo numa sociedade, que é pior que uma animalidade..." *

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Dizia e bem Fernando Alves , citando um escritor espanhol que havia lido horas antes , que se utilidade existe numa crise de saúde pública como aquela que parece ameaçar o país é revelar as nossas debilidades e a nossa fragilidade. Entenda-se isto da forma que se achar mais conveniente. Debilidade física perante um vírus ou psicológica, perante uma ameaça que ainda não compreendemos nem controlamos. O ser humano, o novo deus tecnológico, julga desde há muito tempo ter a capacidade de poder controlar tudo: as outras espécies, o ar, o mar, o espaço e o clima. Só que não. O que os dias que correm mostram é que nem sobre nós próprios temos controlo . O Diário de Notícias publica hoje uma peça que refere que "hHá equipamento de proteção individual (EPI) que está a desaparecer dos armários dos hospitais. A informação foi confirmada ao DN por profissionais de vária unidades das regiões de Lisboa e do Porto, que asseguram "a situação não é nova". A falta de novidade é re...